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diário

alegoria quelônia

. 2 minuto ler . Written by Fabiano Sei
alegoria quelônia

Sou um tartaruga. Sou todas as que são tartarugas—marinhas, terrestres ou de água-doce—; todos os cágados e jabutis; todas (talvez todas) as que quase foram, as que levaram às tartarugas. Serei (seria), todas (talvez todas) as que tartarugas deixarão (deixariam) de ser. Não é minha escolha. Nada disso se escolhe: seleciona-se, mas não se escolhe.

Conhecem-me por lenta, e pela óssea carapuça que é meu corpo. Vejo amiúde que a representam como casa, da qual saio, não raro em pijaminhas. Uma casa acolhe, abriga, aconchega; uma couraça blinda, bloqueia, refrata, repele. Uma casa comporta; uma couraça encerra. Nasci encouraçada, pois venho há muito nascendo-me assim. Seletiva ou selecionada, como queiram, endureci-me, e do que sou não posso sair.

Não sou o primeiro ser que inventou os invólucros vivos: antecedem-me a membrana eucariota, o ovo amniota, o exoesqueleto, as escamas; tampouco sou exclusiva em encastelar-me: aos tatus saúdo e aos moluscos como a iguais; ao antigo Armadillosuchus, meu irmão, não meu ancestral, aos mui antigos placodermos. Apesar de tantos e tão pioneiros ancestrais e contemporâneos, apesar de minha especiosa radiação em espécies, sendo semelhante escudo, hão de me escusar e dispensar o assombro se não for lá muito social.

Por falar nela, minha ancestralidade sabe espantar a paleontologia. Não tenho muitos orifícios cranianos: os répteis, meus irmãos, têm filogeneticamente duas fenestras temporais; a horrível humanidade, somente uma; eu mesma, nenhuma. Nem sempre sabem dizer de onde vim com base em buracos, conjeturam perplexos se os perdi ou se os nunca tive, se sou basal ou derivada. Não tenho broto fixo na Grande Árvore da Vida, não bem me aparento ao universal ancestral comum—o pequeno deus de si que ser vivo se fez, à revelia da inerte matéria em torno. (Sendo às vezes aquática, havendo não poucas vezes voltado ao seio oceânico, creio que nem todas as inúmeras que sou ou fui se disporiam a dar em árvores.)

A filogênese truncada não é, porém, meu principal paradoxo. Sou longeva, e ultrapasso aquela marca de maravilhas a que chamam os onomásticos humanos século. Sou longeva, mas estou extinta: não bem sabendo de onde vim, muito bem sei aonde me carregam os lerdos pés, ou antes o planeta que de muitos modos se move sob minhas pegadas.

Não é bem verdade que esteja ainda extinta, corrige-me a cronométrica comunidade científica. Que me importa seu conhecimento de datas tortas e tortuosas datações. De que me serve a desnecessária precisão de suas métricas, a exaurida exatidão de seus instrumentos. Quando me chamaria por qualquer de seus longos nomes—que desde uma língua morta classificam seres nem sempre mais vivos, que contabilizam minha irmandade para com peixes, répteis, amniotas, tetrápodes, para com algas e protozoários, para com LUCA, meu primo pai. Não estou viva porque querem; não existo porque me pensaram; não estou menos morta porque ainda de todo não me mataram. Pois redoma alguma me impede de viver no mesmo planeta que gerou vida e vulcões, oxigênio e asfixia, descendência e deciduidade; meu dóceis ovos e seu fóssil ódio.