esquisitinhos

aonde não queres

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
aonde não queres

Eis que em verdade,
  jovem cingias
  o corpo e seguias
  onde querias;
velho serás,
  e as mãos estendendo,
  por outrem cingido,
  serás conduzido
aonde não queres.
(João 21, 18)

Adélia, Cecília, Gilka, Lucinda. Deixara-lhe o filho à porta as encomendas da semana. Não à porta da casa; à do Lar. Não o perdoava por ali a haver deixado; não se perdoaria se com ele vivesse. Ao menos ali, nas sombras da mente, na penumbra da alfombra, era independente. Leria suas poetisas, respiraria o lento mofo do lusco aposento, e se deixaria estar. Mas dos demais cômodos, dos corredores, do pátio do Lar, vinha um vazio barulhento. Visitas. Pelo que escutara, era atividade dalgum grupo de senhoras em novena, realizando caridade sob a forma de turismo institucional. Conversavam com os vozinhos, ouviam as vozinhas, elogiavam-lhes os bordados, vasculhavam alvinegros álbuns de fotos; em algum ponto, houve canto no pátio. Mas não tinha pressa nem prazos, não se deixaria aborrecer pelas distrações; sobrevoaria mais vezes um verso, leria um tanto em voz alta, e se deixaria estar. Foi quando a porta decidiu ranger, meio acanhada. Os dedinhos que a abriam produziram uma pessoa. Mas o que a vozinha faz neste quarto escuro num dia tão lindo? Reconhecia-lhe a voz, era a líder; ouvira-a, ainda ao lado de fora do Lar, abaixo de sua janela, instruindo as senhoras sobre como interagir com os idosos: dar-lhes atenção igual, ouvir-lhes as estórias, tocá-los nas mãos, mas evitar abraços, não se constranger por odores estranhos, não oferecer alimentos sem prévio aval da gestão e não recusar afeto a internos mudos, acamados ou urinados. Não lhe fez caso. A vozinha não preferiria vir comigo conhecer algumas de minhas amigas? Aproximou-se, ajoelhou-se frente à sua poltrona. As mãos tocaram as suas—tecnicamente calorosas, estudadamente afáveis. Sem dúvida, era boa; conhecia a caridade, a misericórdia; conhecia os deveres cristãos e a sinuosa, sombreada superioridade a partir de onde os exercer. Não lhe fez caso. Mas que livros interessantes… Com certeza, minhas amigas adorariam ouvi-la recitar alguns destes poemas. Sei que a Amábile gosta muito de Letícia Meireles. Posso ir chamá-las? Tomou-lhe o volume das mãos e o deixou ao chão; tentava alargar o contato. Irei com você; consigo me levantar sozinha. Ergueu-se; a outra a cerceava com mãos a postos, minuciosamente não invasivas. Quando em pé (tomava seu tempo para satisfazer a fantasia da outra), deu-lhe a mão e deixou-se guiar. Chegaram à porta. Ligeira, fechou-a: prensou a outra contra a parede, abraçou-a fundo, colou-lhe os lábios em um beijo forte, fílmico, esfogueado, como se há muito reprimido; os dedos procuravam-lhe os bicos dos seios por sob o soutien, as pernas entrelaçavam-se; subindo a senhora as saias, buscavam-se os sexos. Desvencilhou-se enfim a outra, perplexa. Cambaleou quarto afora, fechou a porta sem saber que o fazia, estonteou-se ao longo e largo do corredor, pondo-se em ordem (cabelos, camisa, maquiagem) enquanto coordenação e coerência recobrava. Vagarosa, limpou-se a anfitriã à pia; retornou ao assento, retomou o Solombra ao solo. Há um lábio sobre a noite: um lábio sem palavra