esquisitinhos

as próprias tênias

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
as próprias tênias

certa vaca leiteira
não podia a noite inteira
  dormir
pois recorrentes tinha de ouvir
cantando nênias
  as próprias tênias

Em primeiro lugar, parabéns por, muito pertinentemente, perceber que tênias — também conhecidas como solitárias — não soem andar em bandos. Infelizmente, Estrela, nossa densamente povoada vaca, contava com menos singular sorte. Em princípio, pensara: quatro estômagos, quatro parasitas, um condomínio lotado. Mas o número de condôminos não era tão simplesmente discernível. Famosamente, passara insone Geni para salvar a cidade, enquanto se lambuzava a noite inteira um alto oficial genocida; durante o dia, a celebração de seu feito privou-a do sono duplamente reparador. Padecia Estrela de igualmente gêmea insônia: à noite, lamentavam as tênias qualquer delas que o nem sempre eficiente vermicida fumegasse; durante o dia, autoridades pecuárias, empresariais, musicais e eclesiásticas se agrupavam em torno da vaca a tentar entender o fenômeno. Eclesiásticas? Sim, eclesiásticas, e as principalmente interessadas, diga-se de passagem, dado o repertório dos polifônicos parasitas. Incialmente, o Réquiem de Ockeghem; a seguir, a Déploration sur la mort de Jean Ockeghem de Desprez; uma versão de “Alma minha gentil que te partiste”, em tradução para latim não-eclesiástico, composta por Leonin (se Leonin houvesse chegado a conhecer Camões, seria exatamente como haveria composto, explicava o saginato regente; vermezinho pretensioso, ruminava a bovina, a cujo rancor não passara despercebida a ameaçadora cacofonia no verso inicial). A mais barulhenta surpresa ocorreu, contudo, quando Estrela foi mantida refém por um looping de Spem in alium. São quarenta vozes — quarenta! — cantando ao mesmo tempo. Algum dia, morrerei disso, consolava-se (embora mal); então, o único hino que cantarão será produzido pelos ruídos do próprio apodrecimento.