cinco haicais pandêmicos comentados

cinco haicais pandêmicos comentados

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Apresento abaixo alguns comentários a uma seleta de poemas publicados no volume haicais dum país pandêmico. O caráter eminentemente político destes textos faz com que sua interpretação contemporânea seja inconteste (ao menos para certos grupos); passado algum tempo, esquecidos os fatos que os motivaram, talvez precisem de alguma memória seja guardada e sua triste gênese.


perene e decídua
atalaia e vasta a vala
conjunta e incomum

Talvez uma das imagens mais chocantes desta pandemia haja sido as valas abertas em série para acomodar a sobrecarga de cadáveres. O Brasil parecia, nestas imagens, haver-se convertido numa vala comum.

Covas abertas. Reproduzida de reportagem do G1.

pandemônio impune
impolítica sistêmica
pandemia endêmica

Embora possa haver (como é comum em terminologia técnica) alguma zona de indefinição entre os conceitos de epidemia, pandemia e endemia, talvez possamos considerá-los satisfatoriamente distintos.

Já se aventou o risco de a COVID-19 converter-se numa endemia, ou seja, de nos vermos forçados a conviver com ela. Também foi aventada a possibilidade que ser considerada uma sindemiatermo cunhado por Merrill Singer, e definido como sendo o que ocorre quando “duas ou mais doenças interagem de tal forma que causam danos maiores do que a mera soma dessas duas doenças”; esta recaracterização da COVID-19 buscaria explicar porque, para alguns grupos, parece ser mais letal do que outros.

sindemia | Definição ou significado de sindemia no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa
Definição ou significado de sindemia no Dicionário Infopédia da Língua Portuguesa

Se os conceitos de pandemia e endemia estão relacionados ao modo como determinada doença se espalha através de uma população, o conceito de sindemia liga esta propagação a características estruturais sócio-econômicas dos grupos humanos afetados: “O impacto dessa interação também é facilitado pelas condições sociais e ambientais que, de alguma forma, aproximam essas duas doenças ou tornam a população mais vulnerável ao seu impacto” (Singer, citado em reportagem da BBC).

Se o conceito de pandemia significa simplesmente que uma doença nova, para qual não há tratamento ou vacina, está se espalhando ao redor do globo, recategorizá-la como endemia pode implicar, ao menos no atual contexto, a morosa ingerência com o que foi combatida. Mais gravemente, tratá-la como sindemia implica, de certo modo, aceitar que as populações mais carentes são as mais afetadas. O frouxo enfrentamento à doença—motivada pelo descaso as populações mais pobres—torna-se, sob essa percepção, a principal característica do fenômeno.


dentro em vós trazeis
novilúnias, coroadas
câmaras de gás

A imagem da câmara de gás está ligada, no imaginário popular, ao nazismo. Os nazistas matavam em massa por asfixia. O fato de a COVID-19 ser uma doença respiratória parece transformar nossos hospitais—sobrecarregados de pacientes, sofrendo por falta de recursos, vendo absolutamente esgotado seus médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem—em câmaras involuntárias que revivem uma das mais violentas cenas da Segunda Guerra Mundial.


hospitais sem ar
fissura da ditadura
inda por tapar

Uma das mais marcantes mostras de descaso governamental—mais violenta ainda talvez que o retardo na negociação e compra de vacinas e insumos—foi a que poderia ser chamada crise do oxigênio. Em Manaus, uma aula inteira de  hospital morreu da noite para o dia por falta de oxigênio. Pacientes foram remanejados para outros estados, aumentando o risco de contágio. Durante a CPI da COVID-19, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello mentiu sobre a crise de oxigênio em Manaus.

Os militares também estiveram à frente de uma epidemia abafada de meningite; agora, um militar inoperante estava à frente do Ministério da Saúde enquanto pacientes morriam asfixiados. Mais que a farda, une-os, simbolicamente, um regime e as sombras que projetou em nosso imaginário político.


haicai parafrástico

sob a noite só
vão-se as lágrimas sombrias
sem quem as derrame

ibant obscuri sola sub nocte per umbram—Virgílio, Eneida 6.268

Um dos mais famosos versos da Eneida ocorre durante a catábase: a Sibila guia Enéias aos infernos, para falar com o finado pai. Eles iam, obscuros, através da noite solitária, através da sombra, lemos na versão em prosa de Tassilo Orpheu Spalding (p.117).

Como bem lembra João Ângelo Oliveira Neto, ao anotar a tradução de Carlos Alberto Nunes, o verso é marcado pela dupla hipálage, figura de linguagem que consiste em atribuir a uma palavra algo que melhor caberia a outra, presente na mesma construção. As necessidades poéticas da tradução com o metro fixo nem sempre permitiram a reprodução exata destas inversões, como podemos ver neste punhado de exemplos que tenho imediatamente disponíveis:

Sem vacilar, adiantaram-se pelo negrume da noite
(Carlos Alberto Nunes, 6.268)

D’erma noite iam sós no escuro envoltos,
(Manuel Odorico Mendes, 6.278)

Sós iam por aquela negregura
(João Franco Barreto, 6.60.1)

Through shadows, through the lonely night they went,
(Christopher Pearse Cranch, 6.331)

On strode they blindly through the gloom, beneath / The solitary night,
(James Rhoades)

Dos tradutores supracitados, apenas Nunes opta por versos de 16 sílabas, que simulam os hexâmetros datílicos da poesia clássica; os demais preferem o decassílabo ou seu correlato acentual, o pentâmetro iâmbico; Barreto faz ainda uso da ottava rima rimada camoniana. Todas as escolhas são motivadas pela busca dum homólogo métrico ao que Virgílio adaptara da épica homérica.

Como o soneto, como a tradução virgiliana, o haicai passa pelas indiretas musas da tradução, da imitação, da paráfrase, e por certa zona de indeterminação entre as três. Não sei se outros aproveitaram o haicai para traduzir ou parafrasear poemas que não fossem haicais; ocorreu-me, porém, converter em haicais um punhado de versos que, de um modo ou de outro, conecto ao solitário, sombrio momento que deu origem à coleção. Desçam conosco Virgílio, Enéias e a Sibila ao nosso atual inferno.


Fabiano Sei
Fabiano Sei nasceu em Joaçaba (SC), e foi criado em Florianópolis. Possui formação nas áreas de Licenciatura em Letras: Inglês, Literatura e Estudos da Tradução, todos pela Universidade Federal de Santa Catarina. Vem atuando com docência em nível superior nas áreas de inglês e espanhol; também atua …
haicais dum país pandêmico ⋆ Loja Uiclap
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Na esteira da auto-publicação digital, estou lançando meu primeiro volume depoemas. Trata-se de uma coleção de haicais, intitulada haicais dum paíspandêmico [https://loja.uiclap.com/titulo/ua6480/][https://loja.uiclap.com/titulo/ua6480/…