esquisitinhos

da cor do saco

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
da cor do saco

sentia certo
  sujeito asco
dependendo
  da cor do saco

Pela manhã, enquanto lavava o esposo a louça, condicionava a esposa o lixo orgânico resultante do desjejum—cascas de laranja e banana, farelos de pão, o pó do café—; suspirava, vertendo-os à sacola plástica; desviava o esposo o olhar. Arrepiava-se, esfregava com inconsciente força o pires, pensava em outra coisa. Incontáveis confrontos ecológicos travaram no condomínio: redução de água na lavagem da calçada, composteira coletiva, coleta seletiva. A reciclagem fora a primeira vitória perante uma assembléia inóspita e preguiçosa, que a aceitou contanto não tivesse de abrir mão de sacolas plásticas no descarte. Não havia outro meio, protestavam. Resignaram-se; era um começo. Desapontara-se o esposo, porém, sem medida: ansiava por livrar-se das sacolas no embalo do lixo. Não suportava a visão de lixo orgânico em sacos transparentes. O mercadinho local—quanto podiam compravam nas pequenas vendas vizinhas, que resistiam ainda ao epidêmico hipermercado—servia apenas sacolas transparentes, sem dizeres. Alegrava-se a esposa por lhe haverem dito que eram mais rapidamente degradáveis, mas o esposo cogitara comprar no mais luxuoso demônio empresarial, cujas sacolas—brancas, ilustradas pela logomarca—melhor esconderiam os resíduos. Que diferença faz?, amuava-se ela. Nojo, pensava o consorte, sequer podendo abrir a boca para responder. Temia algum acidente estomacal. Revirava-o a simples idéia dos restos alimentares dispostos no permissivo invólucro—misturados, mutuamente inebriados, decompondo-se, apodrecendo, dando origem a baixas formas de esfogueada vida; a intimidade alimentar de cada família vilipendiada pelos pútridos detritos; os líquidos secretos exsudando, escorrendo, episodicamente pingando. Não conseguia. Imaginava-se a si mesmo translúcido, explicitando a química de cada reação dos próprios aparelhos, a si e aos demais. Vez ou outra, corria banheiro adentro, e então ouviam-se os grunhidos. Um dia se acostuma, desviava a esposa, indiferente àquilo. Ecologistas não têm direito a nojo de vermes.