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esquisitinhos

da intimidade pública

. 11 minuto ler . Written by Fabiano Sei
da intimidade pública

Não sabia ver o que via. Palavras não tinha que exprimissem, a si ou a outrem, o que experimentava. Tampouco sabia que vaticínio lhe advinha da muda visão: o que quer que ora tivesse à frente, estava à frente de quanto conseguiria compreender.

Quando à praia dera com aquilo, uma única tarefa o vinha atazanando; um único e premente projeto proibia-lhe o sono, desfiava-lhe a fome, tolhia-lhe o talento. Aproximava-se o momento de definir seu trabalho de conclusão de curso—Artes Cênicas, obviamente, uma disciplina sobre performances—, e o componente verdadeiramente humanizador que tanto desejaria agregar ao opus esvaía-se em meio a maus exemplos, seja porque demasiadamente reais, seja porque excessivamente egocêntricos, seja (verdade seja dita) porque seu iniciante cérebro os compreendesse mal. Com clássico fervor que o pós-moderno pendor (do curso e seu) nem abonava nem bania, desejava a elevação do espírito por meio da arte; não como Eurípedes, mostrar a humanidade tal qual é, nem, como Sófocles, apontá-la como deveria ser: levá-la, deseja, a ser o que precisa—para ser feliz, para resolver-se, para sobreviver a si mesma e ao crescente caos capitalista. Mentiria sobre si (para si) se não admitisse, que, como artista, mesmo em formação, nada menos desejava que tudo: a totalidade da experiência estética num inédito, inaudito ato performático. Era em meio a tal global gigantismo de propósitos, a tal insular nanismo de recursos, que se deparara com o que ora não via, pois não sabia ver.

Algo decerto apreendera aos profissionais do ramo, que com performances pasmavam as artes plásticas, com instalações e happenings prestigiosos e agressivos, e que programáticos reproduzira o professor em artigos e vídeos durante as aulas. Detestava alguns: não há de ser em vão a pobre e pressuposta morte canina em mãos de artista e em meio a museu; a “instalação” de Guillermo Vargas tornara-o para sempre (para algum sempre) vegetariano. Corria à pequena boca dos médios círculos digitais que amarrara o artista um esquálido canídeo ao canto dum museu, vetando-lhe alimento; sua arte consistia em inane fazê-lo morrer e que lhe vissem o magro devir. As rechonchudas discussões que produzira sobre ética, sobre limites, sobre aceitação passiva, feito Erisícton, não sabiam saciedade; feito Tântalo, nada alcançavam (parecia-lhe) de útil ou proveitoso. Defendera-se, decerto, o artista: ninguém fizera coisa alguma para salvar o animal. Mais talvez que da morte do cãozinho, aproveitara-se das mídias digitais que difundiriam a (não impossivelmente falsa) narrativa de seu público e paulatino fim. A obra crescera em meio a rumores, fotos e fofocas distribuídos à larga por redes de relacionamento virtuais. Provocar o que há de pior nas pessoas—o ódio ensandecido contra uma figura imaginária (o artista, ignoto de boa parte dos comentadores) disfarçado em amor animal—ao explorar a miséria de um ser preso, pareceu-lhe sempre o supra-sumo do narcisismo artístico. A arte deveria ensinar sobre o humano, franquear as portas da empatia, e não se converter em experimento social, burlando todas as normas da ética científica no trato com sujeitos humanos. Inteira a rejeitava: o confinamento do animal, o ódio de ativistas emotivos, a epidemia de fatos mal-checados,  o cinismo do artista.

Outro problema—entre o ético e o filológico—detectara na obra. Embora detestasse-os ambos, seu rigor epistemológico (já sabia usar a palavra) e algum bairrismo urgiam que Vargas desse o fúnebre crédito a sua influência doméstica: Petrúcio Felker, cuja Nuances 3 consistia em segurar um gato morto durante uma semana. Embora ética não lhe parecesse o forte de Vargas (julgava-o baseado em apenas uma obra, que pessoalmente não experimentara, e endossava, bem sabia, um dos lados da contenda digital que se lhe sucedera, mas até o momento não vira motivos para desejar ir além), havia pelo menos um bom motivo pelo qual não executaria sua dívida para com o polêmico artista brasileiro de idas décadas: fora Felker efetivamente expulso do Museu de Arte Moderna; o público, horrorizado pelo odor da peça—mais total que qualquer ribombante Wagner—, conseguira o cancelamento da performance. Qualquer artista, mesmo os mais sórdidos ou indecisos, deseja ir ao fim com sua obra; Vargas, a quem provera a inação do público de quase infalível álibi, não desejaria certamente lembrar-lhes deste particular rompimento de parede—à base, segundo notícias da época, de cassetetes. Seja como for, o benefício da dúvida era maior no caso de Felker: não sabia se matara o gato, e não era prejudicial à estrutura da obra que o houvesse achado ao acaso; conhecia ao menos uma artista plástica catarinense que, encontrando no estúdio há muito fechado uma gambá morta ao lado do filhote, dourara-os, preservando a cena em seu tocante horror.

Nem a inação do público nem a revolta de empinadas narinas, contudo, almejava. Desejava, sim, a participação de outros seres humanos (preciso dizer que era impensável que houvesse terceira ou quarta parede?, que sequer soubera algum dia em sua formação de ponta como se as constrói?), mas não os desejava rebaixados, humilhados, reduzidos a seu pior; elevados almejava-os, relevantes, superiores a si mesmos. Desejava com fome utópica o amor, a esperança, o prazer. Mas não saberia incluir outras pessoas, mesmo como puros expectadores, mesmo como os aristotélicos autômatos da catarse, quando os exemplos que mais o tocavam lhe pareciam usos maus ou duvidosos que artistas faziam de si mesmos.

Tracey Emin espraiara ao mundo os cumulativos conteúdos em torno de sua cama revirada—garrafas vazias de vodca, lencinhos usados, camisinhas, testes de gravidez—numa espécie de reality show sob a forma de natureza morta. A instalação, garrulamente confessional em seu silêncio, convidando à inspeção, à empatia e talvez ao asco, ganhara notoriedade. Tudo expusera de si ao expor um acidental instante de sua vida caseira (a cama, tal qual se encontrava após quatro dias de horizontal confinamento etílico), nada negara ao olhar dos mais baixos e tristes trópicos da alma humana. Sentia, contudo, o risco da potencial humilhação. Não desejava nem a si nem a outrem rebaixar de qualquer modo; seu planejamento era alicerçado em tentar afastar o risco da maledicência: desejava as flores do amor, não as do mal.

Pior exposição, sem dúvida—pelo corpóreo, pelo imediato, pelo fatal que continha—passara a criadora da obra-prima de todas as artes performáticas, Marina Abramovic. Seguramente, seu Rhythm 0 parecia-lhe a lição zero de todo artista performático. Profundamente, porém, o perturbava; a idéia de que, progressivamente, foram os participantes tomados pela sede de poder sobre o corpo da artista, ao ponto de finalmente apontarem-lhe à cabeça a arma carregada, revelava a profunda abjeção humana. Incomodava-o ainda a idéia de que a própria Abramovic, ao dispor objetos sobre a mesa, convidasse os expectadores, mais que à interação, à violência. Das rosas ao revólver foi uma questão de horas, e umas e outro quem os trouxera fora a própria obra, a própria vítima sacrificial do próprio desejo por arte. Abramovic instruíra a platéia de que assumiria total responsabilidade; seria mesmo legalmente possível responsabilizar-se por tomar um tiro de terceiros? A irrevocabilidade da responsabilização pessoal pelos próprios atos mentia aos expectadores; isso, porém, importa? Um canalha consciente, que arma porta e à face alheia a aponta, é mais canalha que o atirador circunstancial, que com a vítima encontra seu instrumento de morte? Quem quer que houvesse empunhado a arma deveria, para sempre, levar consigo uma responsabilidade que a artista não poderia, jamais, com qualquer instrução ou tratado, reclamar; mesmo assim, o haver-se colocado em tão extrema situação preocupava-o: instigar atos inalienáveis, debater sobre os mesmos, de que adianta, uma vez que houvessem acontecido?

Inspirava-se, antes, no minuto de silêncio compartilhado a que, anos mais tarde, convidaria Abramovic os expectadores. Famosamente, à sua frente sentou-se o ex-companheiro de leito e labor, para que nada dissessem um ao outro. Nada superaria a beleza dessa magnífica performance—tributária, talvez, daquela noite nos idos de 1970 em que aprendera (como talvez já intuísse) que não se deve dar instrumentos à intimidade com estranhos. À vulnerabilidade física, preferira a simbólica, e assim talvez extirpara às pessoas—de coisas e palavras desprovidas—seus melhores sentimentos, para os quais nossa pobre linguagem de ódios e fracassos não forneceu léxico competente. Seu problema com A Minute of Silence era óbvio: já havia sido feita.

Mais discreta, talvez, mas não distante da abordagem de Abramovic, uma pedra no meio do caminho: a Piedra em que se convertera Regina José Galindo. Ovídio lapidara muitos marmóreos destinos nas Metamorfoses: o pastor que mentira a Hermes ladrão, Aglauro (também da lavra de Hermes amante), as aias de Ino, Níobe rainha, o desavisado Licas, Lélaps e um lobo. Neles todos pensara quando descobrira que uma artista plástica guatemalteca inteira de preto se pintara, agachara-se junto ao solo e se fingira de rocha, chegando ao ponto de lhe urinarem encima; nunca lhe ficou claro se se tratava de parte programada da performance, ou se improvisara alguma bexiga impudente o jato. Menos convidativa que Abramovic, vulnerava-se contudo sob a inexpugnável forma de granito, recusando-se à humanidade, ofertando-se talvez ao utilitarismo. A vulnerabilidade parecia-lhe um risco ao qual não estava disposto; seu falseamento (contratar mijões), uma perigosa aproximação do cênico, do encenado, da provocação programada.

Pensara, claro, em seguir estes exemplos de algum modo, invertendo-os. Pensara num segundo Rhythm 0, ofertando aos expectadores setenta e oito objetos—um para cada carta do tarô, seis a mais que a performance original—; a esboçada aproximação dos oráculos, do ocultismo, fê-lo querer naipes de objetos, conforme os arcanos, as famílias reais e os naipes do jogo original, mas colidiam espadas e paus com o diferencial de sua versão: todos os objetos deveriam ser prazerosos, benéficos. Daria as mesmas instruções de Abramovic—de mim façam quanto queiram, como queiram; caia-me sobre a cabeça meu sangue—, mas nenhum dos objetos sugeriria qualquer maldade; flores, frutas, penas, perfumes, almofadas, travesseiros, um cesto para doações, água, etc. Espontaneamente, pensariam no mal? Usá-los-iam de modo perverso de si? Abramovic sugerira-lhes a morte ao facultar-lhes lâminas e armas de fogo; se nada lhes fosse sugerido de mal, como se portariam? Apesar do enorme desejo em encenar seu Ritmo 1 (sim, tinha já nome a peça), não desejava realmente arremedar sua musa, tampouco corrigi-la; menos ainda desejava ver-se com contendas autorais. Não a executaria.

Expandia-se para fora da sala de aula, da biblioteca escolar. Ávido, grávido, gravíssimo acompanhava as notícias de happenings, protestos e performances. Feministas de peito nu afrontando fábricas e igrejas, malabaristas de semáforo, vivas estátuas de pobre ouropel por avenidas e praças dispersas, palhaços fazendo rirem crianças em perdidas alas de hospitais. Era-lhe cada vez mais miseravelmente evidente que estava o mundo saturado de performances. Sufocava-o o desejo por uma forma de expressão artística da qual se empanzinava às avessas o circo das muitas mazelas do capital. Diários tomava ônibus para a universidade, para a oficina de teatro que ministrava, para médicos, amantes, dentistas, para ir ao cinema; tomava-os desde o Terminal Central. Por vezes, conseguia esperar sentado que saísse o próximo carro, mas nunca só; hordas de pedintes e vendedores, permeando toda a extensão do complexo, garantiam de duas a três falas no interior dos coletivos antes que partissem: os vendedores de bala mirins com discursos prontos e fala mecânica (indiferentes talvez à indiferença dos semi-ouvintes), os bilhetinhos mal-escritos de sacomanos surdos, os pedidos de ajuda a instituições evangélicas que substituiriam o vício em drogas por alguma versão de Cristo que mal abonariam os mal-lidos Evangelhos.

Agora, juntavam-se aos clássicos pedintes os novos miseráveis: muito lhe imantava a amuada atenção um jovem, sempre de avental, vendendo bombons gourmet; entrava, dava “bom dia” ou “boa tarde”; em não ouvindo resposta, repetia-o, dizendo não imaginar que ali houvesse apenas pessoas mal-educadas, destarte arrancando-lhes um soporífero eco ao cumprimento. Impressionava-lhe a insistência: certamente, não falava como os demais, e fazia questão de destacar o próprio produto das balas (entre vendidas e esmoladas) de outros ambulantes; nada nele indicava que algum dia se houvesse visto como alguém que venderia de ônibus em ônibus para mal pagar as contas; buscava, em meio àquele afazer da urgência, angariar mais altas alas profissionais ao falar no preparo e na higiene das iguarias; eloqüentemente arrancava o próprio trabalho da vala comum dos demais—que meio pediam, meio ofertavam, indecisos entre a cristã caridade e o varejo invasivo—; não é impossível que terminantemente se recusasse a ser tratado como tantas vezes talvez tratara a seus agora colegas de ofício—com regelada indiferença, empurrando-os sem os tocar à invisibilidade. Comprara-lhe alguma vez um trufado; não desgostara, mesmo sem real interesse em comê-lo. Amistá-lo-ia, mas, mesmo lhe havendo mais de uma vez comprado os quitutes, nunca o moço o reconhecera. Encastelava-se decerto no orgulho de ser suficientemente humilde para não se recusar àquele trabalho de que era indigno, mas que dignificava com ser quem era.

Artísticas trupes mais ainda intumesciam este vaudeville dos que vão e vêm em transporte público. Também poetas (nem sempre cristãos) ouvira declamarem por trocados, o veículo já em movimento variando a acústica da apresentação. Todos importunos. Todos molestos. Todos maravilhosamente resistentes, fissurando o tecido social que os excluía de si, que cansava seus ouvintes a contragosto, e que separava uns de outros por um abismo que se abria dentro da mesma jarra, masmorra, gaiola ou coletivo. Odiava-se por os não ter vontade de ouvir, deleitava-se com o estético incômodo que lhe causavam; detestava-se por sabê-lo, mas bem o sabia: eram a arte. Eram a mais pura, a menos nobre, a mais pobre arte, esmolando para existir. Inspiravam-no, mas não os imitaria; consideraria desrespeitoso (além talvez de inútil) fazer-se por eles passar de algum modo. Desejava reproduzir-lhes o efeito, não as técnicas. Antes desejava coisa melhor: chegar à empatia que debalde buscavam.

Andava. Nestes tempos, andava muito, por todos os lugares. Matava aulas, perdia provas, deixava esperando amigos e compromissos, para andar. Na ânsia por inspiração, desejaria andar por todas as ruas da cidade, do começo ao fim. (Seria essa sua performance? Não, ainda não. Não desse modo anônimo e solitário. Não sem que envolvesse as ruas, as esquinas, as lâmpadas, cada pessoa e cada pedra com que cruzasse ao caminhá-las.) As praias o chamavam, a falta de urbanidade do oceano, mesmo poluído.

Chegara o outono. Certa manhã, tomara um ônibus estranhamente vazio—nem mesmo pedintes havia—, e rumara a uma praia que ainda não conhecia. (Que coisa tola não conhecer todas as praias da própria cidade, pensava.) Não muito tempo de caminhada seguindo a linha do mar, depara-se com um aglomerado. Não deveria haver gente ali: não eram banhistas, estavam vestidos todos, casacos portando, cachecóis, gorros, e exageradas luvas. Algo observavam. Aproximou-se, perfilou-se até a beirada interna do círculo. E custou-lhe saber ver o que via.

Iniciava-se o não pequeno raio do círculo numa figura humana sentada. Uma jovem. Abraçava as pernas com os braços, repousava a testa sobres os joelhos. Pelas sacudidelas espasmódicas, via-se que chorava; pelos tremores, que sentia frio. Soltavam-se-lhe os cabelos, presos num desregrado rabo de cavalo, formando com eles o vento uma rala nuvem caramelada em torno à cabeça. Estava nua. Por isso, supunha, observavam-na. Por isso a distância. Olhava em torno: comentários, alguns risos, um ou outro homem apalpando-se, não inteiramente indiscretos; filmavam, tomavam fotos; alguns viravam-se, fotos fazendo de si, de modo a enquadrá-la.

Não se apiedou imediatamente da cena; irmanou-se-lhe antes. Seria uma artista? Seria uma performance? Mudou de posição, buscando encará-la de frente; estava a jovem com a face voltada ao oceano, o círculo não se fechava para além da guarda furiosa do mar. Chegou o mais próximo que pôde de estar-lhe frente a frente. Não supunha ilegítimas as lágrimas, mas isso pouco lhe dizia: a performance, ao criar sua realidade em torno a si, alas abre às emoções sinceras. Poderia, sim, estar atuando e estar genuinamente comovida, contristada, assustada. (Mais que do efêmero, a performance era a arte do vulnerável; vendo-a, finalmente o compreendera.) Buscou, a seguir, sinais de que não estivesse só; se fosse mesmo uma performance, haveria uma equipe: alguém estaria por perto, com as roupas que usaria, com algum pronto roupão; algum dos fotógrafos seria menos sádico, menos erógeno, mais profissional. Dada a distância da civilização, para que houvesse tantos espectadores, alguém teria de se haver aproximado dos bares e restaurantes próximos à rodovia com a deliciosa fofoca: há uma mulher nua chorando à beira do mar. Não identificava sinais de uma equipe, mesmo de um parceiro. Ninguém parecia trazer consigo bolsa ou mochila. Começou a doer-se. E se fosse real? Como viera parar ali, nua, completamente nua? Quem ali a largara? Abusaram dela? Fora seqüestrada ou drogada?

Antes que se desse conta, viu-se retirando o casaco. Acorreu ao centro, colocou-lho aos ombros, procurou levantá-la. Está tudo bem, fique tranqüila, vamos buscar ajuda. Uma senhora se aproximou. Tenho casa próxima, podemos levá-la até lá. Fique calma, minha filha. Vou lhe dar algo bem gostoso para comer, quem sabe um cafezinho, e vamos ajudá-la a voltar para casa. Já aos primeiros passos em direção à multidão, espalhou-se esta como partículas num espirro. Sentiu-se contagioso, mas agradecido por não ter de se esbarrar com os espectadores. Conforme iam ganhando força os passos dos três, apressavam-se os da jovem. Sem ainda erguer-lhes o rosto, indomavam-se-lhe os pés. Desgarrou-se. Saiu correndo, casaco deitando (talvez por descuido) ao chão. Tentaram persegui-la—ele ainda por um pouco mais, pois mais fôlego tinha que a acompanhante—, mas perderam-na enfim de vista. Fugira-lhes nua, em momento algum a cabeça erguendo das mãos em concha. Olharam-se perplexos. Marejavam os olhos acobreados da senhora, confusa, escassa, desorientada. Os seus sentiu orvalharem. Abraçaram-se, sem se conhecerem, chorando pela desconhecida. Duplamente impotentes sentindo-se.