esquisitinhos

de colecionar identidades falsas

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de colecionar identidades falsas

certo moço maroto
de inspiração do capiroto
(a quem vira sem calças)
  desenvolvera o desejo
  que a custo dava ensejo
de colecionar identidades falsas

Reza a lenda que com Satã sonhara Guiseppe Tartini; tocava-lhe o demônio o violino ao pé da cama, do sonho surgindo a mais conhecida sonata do sonhador, Il trillo del Diavolo. Menos sorte teria Carlito, que praticamente desconhecia o instrumento, mas que, ao longo de alguma possivelmente proibitiva caçada virtual, deparara-se com uma xilogravura do osculum infame. Na mesma noite, sonhara que lhe expunha o ânus a visitação o príncipe das trevas; entre as nádegas do capeta, um retângulo plastificado: uma identidade sua, falsa; dava-lhe como dinamarquês, contando 35 anos (Carlito há pouquíssimo apenas atingira a idade que lhe franquearia sonhar tão freudianos sonhos). Dias a fio, perseguira-o a nitidez com que se lembrava do documento; decidiu pesquisar a cara dos RGs dinamarqueses; em nada lhe corrigiram o sonho. Não recorreu a diabólica invitação, mas permaneceu a vontade de possuir identidades falsas. Economizando o insosso salário de office boy, espichando-o à base de trabalhos avulsos e assuntando com as fímbrias do submundo, mandara fazer uma sua. Caríssima lhe custou. Desejaria ter uma para cada país do mundo. Mas aquele pedaço alternativo de si pouco o satisfazia: era duplamente falsa — não correspondia aos dados estatais que o identificavam perante o mundo, não correspondia ao verdadeiro objetivo de uma identidade falsa, que é mentir ao mesmo mundo (não desejava usá-la, apenas tê-la). Desejou, então, acesso a identidades verdadeiramente falsas, utilizadas por genuínos falsários. Muito se espantara — retardando o ainda maior muito que se orgulhara — a mãe do menino ao vê-lo ardorosamente estudar para o concurso da Polícia Civil.