laudas

de comer a lua

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de comer a lua

Ismália, a girafa
  odiava alfafa
mas saliva à língua sua
  borbotava ao pensamento
  (idéia de jerico ou de jumento)
de comer a lua

Não há vida fora do zoológico, dizia Ismália, cativa nascida. Mas o que exatamente seria vida dentro do zoológico não saberia dizer. Alguns dos animais capturados questionavam-na quanto a seus instintos. Saberia reconhecer uma planta que não lhe houvesse oferecido mão humana? E um predador? Doce era a fala do triste e preguiçoso leão, carne comendo que não caçara, mas e os livres e ágeis que, por vezes, quase estraçalharam os atolondrados antílopes, quentes recontando estórias de caça? O fato é que Ismália, desprezando embora os humanos que ali a mantinham, não aprendera direito porque os desprezava; seu aprendizado do que seria liberdade era incompleto. Era ainda desprezada por seus desejos mimicamente hominíneos. Preferir ao comer, por exemplo. Propositadamente, davam-lhe os tratadores alfafa das mais misturadas formas, para ver as caras que faria ao detectá-la. Acha que em seu habitat natural teria direito a escolher alimento? (Não se inteiravam os animais de que dizer “habitat natural” era um indício de humanização de suas naturezas; infelizmente para Ismália, em sua grande ignorância do que fosse natureza, também a ela estava vedado disso inteirar-se, e se assim defender das diatribes.) Uma gata que por ali passeava, e que a Ismália trazia notícias mais nuançadas dos mundos humanos, dizia que outra coisa a intrigava. Seus desejos não são somente arbitrários como os dos humanos, dizia à amiga; são igualmente simbólicos. Mas o que é um símbolo?, indagava a girafa. Uma máscara que antepõem os humanos à própria ignorância, e que lhes permite falar como se soubessem, respondia a outra. Referia-se, claro, à estranha atração da confinada amiga pela lua. Não tinha fome ao ver os vegetais que lhe eram entregues em ração, mesmo que não fossem alfafa; abundante babava, porém, ao ver a lua cheia. A sangrenta e fresca cereja que vira no céu em dia de lua vermelha quase lhe deu torcicolo, tanto se esticou e esticou, tanto sentia já o sabor da suculenta luz que emitia. Certo dia, encontrara-a particularmente abatida a gata. Que houve?, perguntou preocupada. Choveu ontem durante o dia, contou Ismália; à noite, cheia a lua se refletia em uma grande poça do lado de fora da jaula. Havia uma lua ao céu e outra ao solo. Distantes as duas, dúvida e desejo duplicaram, mas deu-me esperança que ao menos pudesse beber a água que temperava a lua com sua imagem. Nada em você é tão belo quanto a tolice, disse a gata, doce, honesta, rondando-lhe carinhosamente as compridas pernas.