certo autor
com louvor
descobre a verdade
  sobre o conceito
de eternidade

Os aplausos, as fotos, os autógrafos; o jantar com os demais convidados, os parabéns do editor, a promessa de novas palestras. Devidamente inseminadas por fotos e vídeos, as redes digitais já emprenhavam comentários, empenhados em chamar-lhe a atenção: lindo; não perco uma palestra; por que aparou a barba; adorei os óculos, ficou com ar de intelectual. Os isométricos versos livres da série ela, cronometricamente publicados em suas redes oficiais de comunicação e agora finalmente compilados em livro, vendiam bem; prometera que autografaria os livros com versão manuscrita do poema que, até o lançamento do volume, obtivera maiores engajamentos:

Ela (63)

quando se perfuma com leite de rosas
a noite fica mais cheirosa
e as rosas aprendem

Os contos de amor e desilusão que passaria a divulgar às 18h da quinta-feira seguinte (horário de Brasília), para que constituíssem, dentro de não mais que um ano, sua primeira incursão na prosa, eram, na verdade e em grande parte, os contos que ingênuo e desavisado publicara, independente e mais que anônimo, antes de que os contatos certos lhe apontassem como se deve ler verdadeiramente o teorema do medalhão: a notoriedade é um jogo de armar, e o notável não o monta desde fora, mas desde o centro. Não se sente acaso mal por simular uma estréia que já ocorreu, perguntou-lhe algum mais franco amigo. Duplamente não, respondeu: em primeiro lugar, não existe estréia fora do mercado editorial; uma edição-do-autor é uma curiosidade que só passa a existir quando edições não-do-autor vêm à luz—minto: aos holofotes. Em segundo lugar, dificilmente seria o primeiro a requentar o caldo pra cozer novo guisado; se Bach pode, por que ele não? Algum crítico talvez o notasse, insistiu o tolo sincero. A crítica é o berço e a campa dos que escrevem para os críticos; aqueles cuja obra sobrevive por fazerem fila indiana em listas escolares ou universitárias, por ornarem dissertações e teses com seus sobrenomes. Não me fiz escrevendo para ser replicado num punhado de artigos acadêmicos que sequer os orientadores leram; escrevo diretamente para um público que me segue e reverbera. Além disso, onde já se viu um crítico que leia obras lançadas independentemente? Também dependem de suas editoras de confiança para saberem o que é literatura. Dispensou o ex-amigo: concederia entrevista digital, a ser transmitida ao vivo, em algumas horas; urgia aprumar-se. A barba—sempre muito lhe ocupava a barba. As leitoras adoravam-na; dava-lhe um ar de homem maduro, sério, sóbrio (não que o não fosse, mas seriedade e sobriedade tendem a se manifestar interna e externamente de modos mui distintos). Dedicava-se à barba, nestes momentos, com esmero parnasiano; ao longo da carreira, compusera-a nos mais variados metros: já a escandira em redondilhas menores e maiores, em metro de balada, em decassílabos heróicos e em alexandrinos; andava mesmo tentado às aventuras dum experimentalíssimo hexâmetro datílico. A camisa, selecionada na noite anterior, cobriria a recente tatuagem (verdadeiro Moisés ao Mar Vermelho das leitoras, divididas entre as que seduzia ver-lhe o bíceps direito emoldurando versos do segundo círculo dantesco e as que, sem forças para tal, desgarravam-se-lhe com ares de inocência rompida); para falar dos grandes amores da literatura—Elisa e Enéias, Romeu e Julieta, Bentinho e Capitu—exigia-se uma aparência atenuada, menos ferozmente masculina, cuja sensualidade derivasse das palavras levemente lentas e arroucadas, como um puríssimo sopro—espontâneo, acidental, inevitável.