esquisitinhos

de gordura

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de gordura

certo senhor
  acha um horror
que sem cautela
  a mão na tela
do celular
  deixe ao usar
marca impura
  de gordura

À época da telefonia fixa—daqueles telefones com discador giratório, com fio deliciosamente enroladinho ligando o aparelho à base—, custava-lhe encostar o receptor ao ouvido, especialmente quando a pouco se o havia usado para ligação mais longa. Havia sempre um lencinho próximo, para a imprecisa higienização (melhor que nada, suspirava antanho). Nos ônibus, nos banheiros, havia as pessoas que, em dia chuvoso, após banho vaporoso, passavam a mão no vidro, no espelho, para clarear a visão: quando secavam, as marcas. Uma porquice. Mas nada, nada na vida o preparara para a ultíssima, utilíssima tecnologia das viscosidades portáteis. Trazer consigo a própria gordura, não em si, mas espraiada sobre uma tela que se via constantemente forçado a usar, na qual sem fim deslizava os dedos, nela espargindo camada adiposa não mais epitelial—não mais celular (das células), mas celular (do telefone); não mais digital (dos dedos), mas digital (do aparelho). Ao fim de um seboso dia de verão, via-se já em baixo-relevo a senha que destrava o écran. Uma porqueira. Constante e inconveniente lembrete—não o único daquele aparelhinho, nem talvez o pior—daquilo de que somos feitos. De como nos desfazemos, vestígios despegando mundo afora. Lera alguma vez sobre análises duma vítima sacrificial mumificada: era possível retraçar as mudanças na dieta da jovem ao longo dos fios de cabelo. Estes mesmos que, oleosos, ressequidos, trincados, despedimos pelas vias, pelas casas, pelos veículos, pelos alheios corpos. O desjejum (contorcia-se pensando) na base de um fiapo solto ao acaso. Não se preocupava com os conteúdos armazenados no celular—uma toleimada sem tamanho, que pacientemente recebia sem fazer-lhe caso, lembretes laborais, alarmas falsos, fotos inúteis, tudo importuno, nada importante—, mas sempre o atormentava essa arqueologia íntima, esses moles fósseis de si que por aí desprendia. À mochila (não saía sem mochila), o álcool em gel. Ruim, ironicamente ruim, após recorrer o pano à tela, utilizá-la—limpíssima, desinfetada, áspera. Irresponsiva ao toque.