moço havia
mui estudado
  deveras cansado
a quem atormenta
  a dúbia exigência
da pecha jumenta
  de inteligência

O que é isso?, a mãe, mostrando-lhe o telefone. Uma notificação de atualização dalgum aplicativo: explicou-lha, clicou em avançar e a fez sumir da tela. Longe dos olhos, longe do coração: beijou-lhe a mãe a testa, agradeceu ao filhinho querido e saiu. Antes disso, passaram o dia sem se falar; azedara-se a mãe com algo que lhe dissera; estava quase certo de que lhe interpretara o semitom de voz, não necessariamente as palavras, menos ainda o conteúdo proposicional da asserção. Estudara muito, é certo; dava já os primeiros passos—nem sempre importunos, não de todo inoportunos—na carreira docente; muito se orgulharam a mãe e as tias durante a colação de grau, ou quando fora aprovado em concurso para lecionar no estado, nem tanto quando lhes amostrava os resultados da educação superior e suas aptidões profissionais: questionar posturas puídas, apontar tropos estropiados, aprofundar opiniões planas e aplainar raciocínios pedregosos. Incomodavam-se com os “palpites”, com a arrogância de alguém que se arvora em tudo saber, que reconhece apenas a própria opinião; por vezes, tentavam amaciá-lo pelo ego: um moço tão inteligente dizendo umas coisas dessas… As estratégias mais mansas geralmente estavam reservadas aos meios digitais: nem sempre satisfeito em ter o Senhor como testemunha dos rins, às vezes pegava-se derramando o fígado em comentários pouco elogiosos ao mal-grafado autoritarismo dalgum parente em grupos da família ou foros públicos; era quando vinham mãe e tias admoestá-lo com doçura que a alguém com tais dotes intelectuais não era ajuizado tamanho preconceito com a opinião alheia. (Mas se o preconceito estava justamente nas opiniões que refutava!) Um moço tão inteligente, mas se acha o dono da verdade… Não lhes interessava o que teria a ensinar, exceto em áreas que não eram exatamente a sua: Como faço para abrir este vídeo? Como acerto a hora do microondas? Consegue ler as instruções do aspirador? Você que é tão estudado não poderia ajudar seu priminho com a lição de matemática? Sentia amargar no pescoço as decepadas duas cabeças duma Hidra de Lerda: era inteligentíssimo para tarefas práticas que nada tinham a ver com sua formação; era um arrogante nada inteligível quando falava do que estudara. Reconhecer-lhe a inteligência era uma forma de chantagem para lhe angariar mercês instrumentais; não sabia se de fato o achavam inteligente (talvez sim, sem muito bem compreender o que isso implicava), ou se apenas o amolentavam com palavras que sabiam ser-lhe caras, para que lhes fizesse os favores tecnológicos que tinham preguiça de executar. Davam-lhe ouvidos funcionais, e a inteligência que tinha a seus olhos o magoava. Aceitou reconciliar-se novamente com a mãe através desse pequeno préstimo digital, suspirou, e seguiu planejando as aulas da semana seguinte.