laudas

de lugar nenhum

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de lugar nenhum

certo sujeito incomum
  popular se via
pois toda gente o conhecia
  de lugar nenhum

para Leonardo Vítor Marcelino, a quem devo o argumento

Não sei como se chama (não, eu em particular não sei, não me interessou saber e, dado o que segue, surpreende-me que não me haja interessado saber porque não sei), mas toda a gente o sabe. Não há quem não o conheça. Cumprimentam-no por onde passa, chamando-o pelo nome. Como é coisa de anos, está acostumado, e simplesmente sorri; desenvolveu estratégias para distinguir aqueles de quem se lembra, aqueles de quem não se lembra mas deveria, e aqueles que simplesmente o conhecem. Desse modo mesmo: simplesmente, como conhecimento inato, atávico ou instintivo; como algo que souberam desde sempre, que não lhes causa estranheza ou espanto. Já interpelara alguns: Com licença, mas de onde me conhece? Como sabe meu nome? Há pausas, hesitações, desencontro de mãos rumo ao mento ou cocuruto. Olha, não sei. Sei que nunca nos falamos. Nunca nos vimos. Mas você não é o filho da Marta, que estudou engenharia elétrica até a 3a fase, depois pediu transferência para sociologia? Não é aquele garoto que ralou os joelhos na calçada no dia que ganhou calça nova aos oitos anos? Não é aquele adolescente crivado de espinhas apaixonado pela Susana no segundo colegial? Estavam sempre certos; não sabiam tudo, contudo: alguns sabiam mais que outros; alguns fatos era mais corriqueiramente conhecidos que outros; raros sabiam coisas que a ninguém confessara ou que ninguém vira. Participou-me a estória uma senhora ao meu lado no ponto de ônibus, quando passou por nós o rapaz. Sabia minha informante ser eu o único a desconhecê-la, mesmo que nunca antes nos hajamos visto, naquele ponto ou no cosmos. Não lhe perguntei o nome do gajo; não me interessou saber que tipo de conhecimento inato era esse que despertava, e que afetava inclusive a memória de terceiros quanto a quem sabia ou não a respeito dele. Mas aprendi, de uma mulher que jamais antes o vira na vida, que estava faceiro, pois iria jantar com uma epistemóloga; estava certo que terminariam entre os lençóis, quando apenas desejava a moça estudá-lo para seu Doutorado em Teoria do Conhecimento.