esquisitinhos

de quem alto falava

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de quem alto falava

Certo homem havia
que se falto julgava,
pois inveja sentia
de quem alto falava.

Chegava a algum rotineiro lugar (não eram tantos), e já o saudava algum amigo aos gritos: “E aí, Expedito!” No supermercado, no ônibus, em reuniões de condomínio, onde fosse, ouvia se esgarçarem as pessoas ao telefone, esgoelando-se umas às outras, suas vozes ecoando como se por celeiros e túneis, e pensava: que bom seria ter tamanho poder vocal. Talvez não lhe faltasse a voz, mas o ânimo. Era demasiadamente tímido. Talvez fosse patológica a timidez. Não poderia ser natural que lhe custasse anos, verdadeiramente anos, até que pudesse ter uma conversa um pouco mais animada com algum amigo íntimo. Desconcertava-se com abordagens de pessoas menos familiares, mesmo que abundantemente conhecidas; gaguejava, branqueavam-se-lhe as respostas, vinham-lhe a meio, fritas ou trituradas, as palavras poucas que alcançava formar. Raras vezes na vida, algum amigo meio desconcertado o instara a “falar mais baixo”. Sentia-se esperançoso. Sonhava que mais amigos lho haviam desejado pedir, mas lhes faltara a coragem da deselegância. Marcaria consulta com terapeuta de fala, se lhe saísse a voz ao bocal, se lha compreendessem as recepcionistas.