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esquisitinhos

de rapina

. 3 minuto ler . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de rapina

certo rapaz
mais e mais
  sofria a sina
de não semelhar animais
  de rapina

Pesado o pernil, de dentro advinda, ouvia a voz que vaticina: carne é carnificina. Depõe a compra no carrinho, e tem talvez certeza de que a moça que acabara de passar—na cestinha, alguns legumes—lançara-lhe um olhar mau. Parecia-se à sobrinha; de relance, parecia-se à sobrinha. Há algumas semanas, não lhe dirigia a palavra: distraído, sugerira que se fizesse um churrasco para celebrar-lhe os dezessete anos; ferrenha na recém-começada senda do veganismo, dela ouviu poucas e boas (nem tão poucas, a bem da verdade). Não o convidou para a verdoenga festa—a reciclável, reaproveitável, a orgânica e biodegradável festa que planejara, menos em celebração que em vingança contra ele, bem o sabia ou supunha. Mas na natureza todos os animais matam para comer, contestou-lhe, estupefato ainda pela gafe. Explique-me, então, como caçou e matou o que tem no prato: dilacerou-o com as garras, paralizou-o à peçonha, arrancou-lhe a pele a bicadas? Foram as últimas palavras que trocaram. Desde então, evitava a casa da irmã; não que lhe importassem os desvios ideológicos que davam azo à rebeldia da jovem parenta, mas algo de fato o ferira. Não, não sonharia tornar-se vegetariano, tampouco reduziria a animalesca dieta, mas envergonha-se agora dela. Não era culpa: não era moral a debilitação que o constrangia, mas física, anatômica. O que lhe lançara a sobrinha em rosto era que não tinha meios materiais para caçar e consumir as presas. Dissera-lhe, entre outras coisas, que nossa dentição era herbívora; disso discordava: nem carnívora, nem herbívora, mas cozinheira; os nossos eram os necessários, os evolutivos dentes de quem cozinha o alimento, destarte melhor lhe extraindo os nutrientes. Nossa ferramenta evolutiva para caçar e consumir não eram garras, venenos ou bicos; não eram velocidade, força ou camuflagem; armamos-nos de cultura: o cultivo do fogo, o preparo das armas, o planejamento do ataque; o sal que conserva, o celeiro que armazena, os animais que se deixam domesticar. Não protuberam nossos corpos apetrechos: transferidos à cultura, expandimos em muito a dieta, e praticamente não há o que não comeríamos. Crua e viva consome a cobra a carne a que a compelem as mandíbulas adaptadas, a peçonha, o trato digestivo; não menos herbívora a preguiça, que das mais difíceis fibras faz manjar, apoiada num moroso metabolismo e em várias especializadas câmaras de fermentação. Não têm escolha. Por nossa vez, não somos senão escolhas, não raro falsas: refrigerantes, sobremesas, vários como pareçam, não variam; não são senão sacarose em demasia. Tudo comemos, nada sozinhos conseguiríamos comer. Envergonhava-se perante a carne, não por comê-la, mas por não conseguir caçá-la. Algum produto, entre os corredores do hipermercado, majestosa estampava uma águia—asas abertas em vôo, olhar focado ao solo, garras prestes. Em promoção entre xampus ou travesseiros, evocara a ave de Zeus o figadal abutre que repasta o filho de Jápeto. Compreendia agora o mito: dera Prometeu à raça humana o fogo, extirpando-lhe, assim, aquilo de que se serve o abutre para bicá-lo. Mais que punição, uma lição. No caminho de volta à casa—maior e maior a vergonha quanto mais doíam os frouxos braços, que cedo cansavam os parcos pacotes—, um cachorro. Achegou-se, amistoso, o amiguinho. Também aos lobos ferimos de morte, que de nossa indolente cultura dentes e garras achegaram, raspando as sobras do solo que pisamos. Traspassou-o veloz pensamento: matá-lo a dentadas. Jamais o faria: sabia ser a idéia assassina (se assassina para o cão, por que não para o boi, diria a sobrinha) um mecanismo de culpa: não só por pensá-lo culpava-se, mas por não o querer nem poder implementar. Sustentando agora todas as sacolas com única mão (apesar da dor), afagou-o. Seguiu caminho, no pernil pensando, sem apetite.