laudas

de ser careca

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de ser careca

barbeiro havia
  cuja enxaqueca
era a dura ironia
  de ser careca

Escutara—e não pouco—que assim sentir-se era tolice. Mais de um cliente atestara haver mais de um barbeiro encontrado com o mesmo déficit capilar; mais de um lhe elogiara o talento, perorara arrazoadamente que aos cabelos se os corta com as mãos, não com as madeixas, que barbeiro algum pratica em si para formar-se, mas nos outros. Verdade seja dita, a poucos a ironia que o macerava parecia irônica; por educação, cosmopolitismo, pressa ou descaso, pouco ou nada faziam do globo pelado que lhes apresentava ao perguntar: “O que vai ser para você?” Mas o momento da revelação (em se tratando de cliente novo) ou do reencontro (com os antigos) sempre o afligia. Sabia terem as melhores vozes razão; sabia raros os comentários zombeteiros, próximos do inexistente—por vezes, quando instado, não conseguia rememorar um chiste sequer que lhe houvessem feito por ser um barbeiro careca—; sabia das próprias capacidades na profissão que com honra e orgulho herdara ao capilaríssimo pai. Nada, porém, o consolava—exceto, talvez, a zombaria que lhe fizera a esposa no dia em que lhe confessou que pensava recorrer a perucas ou implantes. Instantânea lembrara a esposa um episódio do Pernalonga calcado nas Bodas de Fígaro, no qual mistura tônico capilar e fertilizante, flores fazendo nascer à cabeça do Hortelino. A gargalhada resultante—alta como se tripla, tripla como se das goelas de um Cérbero sabichão ou de harpias palhaças—superaquecera-lhe os ouvidos por dias. Somos nosso pior destino, pensava—os pensamentos cobertos de alheia razão, a cabeça nem tanto.

The Rabbit of Seville (1950) (cena). Dir. Charles M. Jones. Roteiro Michael Maltese.