esquisitinhos

de seu fedor

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de seu fedor

certo senhor
  de um agrimensor
era mentor
mas estertor
  causava o esplendor
de seu fedor

O perfume que antecede às chuvas dera-lhe primeiro o indício de que amava a terra; desvendá-lo o ligara ao solo, ao conhecimento das coisas que guarda: a museologia das camadas, a gênese das rochas, a mênis vulcânica. Aprendera que Erastótenes cirineu trabalhara em Alexandria; mínimo, minúsculo, microscópico o imaginava frente às tarefas de medir o crescente cosmos e ordenar o crescente acervo. Micromégas e o Hotel Infinito—os experimentos moral e matemático de Voltaire e Hilbert sobre a concepção das grandezas—levaram-no a aguçar exatidão e precisão em sua fantasia do minguado matemático, medindo um globo gigante a ponto de ser invisível. Desses juvenis fragmentos, organizou conhecimento científico coerente e sensato, formou-se agrimensor, concluiu Mestrado e Doutorado e, agora, recém sancionado pelos mecanismos oficiais da carreira docente, preparava-se para orientar. Seu primeiro orientando, porém, trazia-lhe à tona as importunas palavras da professora que lhe fizera descrever em detalhes como se sentiria se fizessem troça com suas orelhas (tal como fizera às do colega à frente). Que tem isso a ver com álgebra?, esbravejou. Ensina-se o que se precisa, não o que se quer, nem o que se deve, respondeu a firme educadora. Aprendia agora, ao orientar, o que pessoa alguma (nem Voltaire) lhe ensinara: a insuportável tolerância. Não, não era o garoto arrogante, nem irresponsável, distraído, imbecil, nem um entrave herdado a outro orientador. Apenas tinha uma devoção à cebola, ao alho, aos temperos fortes e às bebidas não menos que alguém com problemas estomacais jamais deveria nutrir. O aroma que exalava da pele—não das roupas, não de algum superficial cigarro, não do perfume barato, não (sempre) dos flatos—quase formava um halo em torno a si. Quase poderia, aplicando os mesmos instrumentos com que se mede e cartografa um terreno, desenhar um mapa do odor. Nos maiores momentos de tontura, arquipélagos via, e ilhas; a formação sentia de serras e o rebaixamento de vales, pelo movimento de placas de fedor. Transparentes divisava camadas de mau, ruim e péssimo olor, movendo-se umas sobre as outras, e causando a fétida geografia que respirava. De fato, faminto, um dia retirara o estudante da bolsa uma cebola, devorando-a qual maçã. Ensina-se o que se precisa, não o que se deve, repetia-se, desgostoso, derrotado. Respirava raso, profundo exalava, e casualmente: Rosalvo, você já consultou um gastro?