esquisitinhos

de ter esperança

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
de ter esperança

merencório moço
água tirando de um triste poço
  à custo a lembrança
dava endosso
  de ter esperança

Cansados passos dirigia diário ao recluso poço. Descia o balde. Qual a diferença entre rotina e ritual?, pensava. Não havia acaso algo sagrado em renovar da própria vida o pacto, o reiterado balde abaixo enviando em silente sacrifício? Sonhava, certamente, com melhoras. Urbana vida talvez, facilidades modernas; a impossível abundância de escorreitas torneiras, a luz extravasada de prestes lâmpadas. Por mais que pensasse, não havia modo possível de realização: vivia sozinho, ninguém conhecia, parentes há muito perdera, de meios não dispunha para tentar coisas novas. O ermo que lhe dava minuciosamente menos que o mínimo viver não o desejava nem longe, nem morto. Mesmo assim, persistia o sonho: sair dali. Sacrificar-se ao poço ou dele distanciar-se—qualquer das duas soluções, para todo o sempre. Tolhia-lhe o sonho a coragem do mergulho. De onde vinha que ali o mantinha a mais irracional das idéias? Onde a aprendera, que nenhum dos poucos infelizes com quem topara lha poderia haver ensinado? Que dispositivo era esse, mais tautológico que evidências, mais razoável que o raciocínio, mais calmante que o pior torpor; que teimoso mecanismo o não deixava em paz, alguma porém sempre lhe concedendo após irromper em choro? Não podia senão ter esperança. Não alcançava compreendê-la, não saberia perdê-la. Não se realizaria jamais, tampouco se esgotaria. E seguia, poço abaixo, o balde. Água para mais um dia. Ergueu-se, abriu uma fácil torneira em algum canto da alma, e tomou o eterno rumo.