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esquisitinhos

dela fazendo uma harpista

. 3 minuto ler . Written by Fabiano Sei
dela fazendo uma harpista

moleca havia
  que contra os estudos renhia
té que sábia mestra
  por meio de técnica destra
finalmente a conquista
  dela fazendo uma harpista

Sabidos não são por que mudos motivos tanto teimara, e muito lhe custaram até que vingassem (se vingança neles havia, ninguém sabia). Talvez a inspirara diáfana imagem divina: Deus, de anjinhos cercado, a seu solene Sol menores sóis, humildes bemóis modulando das liras, muito envolto o Trono em nuvens (Deus não se deixa imaginar). Talvez certa soirée em casa de amigos, onde suave e serena, delicada e deslumbrante, deslizando enlevos constantes, harmônicos, clássicos ou barrocos, vira uma harpista; presos, perolados ao topo os louros cabelos, bailarinos os braços, esvoaçantes as mãos, flutuando entre as oitavas dum grande e dourado instrumento, ele próprio sóbrio e dorido qual exclusiva virgem. Pouco importava o motivo: seria a filha harpista, e seu o sonho dos anjos. Distraída, talvez, esqueceu-se a menina de o mesmo querer que a mãe. Não pouco a esta custava—em paciência, tempo e esforço, quando não honorários—retirar a filha de seus bancos de areia, de sua construção de castelos, das imundices onde mundos moldava—violentos talvez, sempre em busca de ordem, arquitetônica e moral—, para as lições com a jovem mestra. Livre criava, livre se cria a moleca em seu rincão de verde, e arrancá-la daí para ser feminina e ordenada durante uma hora de aula ou de estudos não era nem feminil, nem ordeiro. Certa feita, ao chegarem à escola—já havia a miúda, sem bem saber como a mãe, sujado de terra o vestidinho no caminho—, ouviram o final de uma peça com que matava a espera a professora. Gostou?, perguntou à pupila, em cujos embebidos olhos percebia uma chance. É de uma compositora francesa chamada Henriette Renié. O que quer dizer esse nome?, sabia a menina que nomes tinham sentido, e nunca dava a personagem alguma que criasse nome sem hermenêutica. A peça se chama Danse des lutins, a professora, respondendo-a sem bem compreender. E quem está lutando? São seres mágicos dançando à noite em torno ao fogo, improvisou a não desatenta maestra; veja se percebe como são serelepes os pezinhos deles. Exprimiu novo trecho, atenta à criança, não menos à mãe, calada comparsa; interrompeu-se, satisfeita: encantados, extasiados, seres de fina e infinita essência—ela os via, dentro dela dançavam, e adentro invitavam-na ao circo das fadas. De repente, porém, um franzir de cenhos, como se apenas agora atinasse a um importante estrangeirismo: E uma mulher compôs isso? Claro, por que não? Nenhuma mulher nunca não compôs nada, obstinou-se a menina. Mas de onde tirou essa idéia? Muitas mulheres compuseram; a autora desta peça é um dos mais importantes nomes na história da música para harpa. Acendeu-se a pequena no mágico fogo de todos os círculos fádicos: Então mulheres podem fazer isso também? Quero aprender essa peça! Esta é uma das mais difíceis peças para harpa, meu anjo; se praticar muito, um dia estará pronta. Ao dizê-lo, receou desapontá-la—logo agora quando, pela primeira vez, parecia fisgar-lhe o interesse—, mas o contrário ocorreu: ter a honra de alçar-se ao direito de tocar algo que fora composto por alguém como ela, almejar esta honra como a uma conquista, pareceu-lhe uma estranha alegria. Nasceu assim, na sujismunda arquiteta de lama e areia, a sisuda harpista. Tendo Renié por meta, esmerava-se agora nas lições, irmanada ao livro de harpa de Germaine Tailleferre (assim que possível introduzido), não ignorando tratar-se duma homenagem da compositora a Madame Tardieu, sua professora; no gesto, via a mais bela e grata forma de cooperação, e sentia-se tocando a quatro, seis, doze mãos. Mesmo sem os termos que dariam forma ao que sentia, sentia-se o elo final entre a harpa e a longa linhagem das que se deixaram de herança às futuras amigas, que as reviveriam através de seu labor criativo. As que eram com ela, como ela.