esquisitinhos

do aniversário

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
do aniversário

homem havia
  que escondia
os sentimentos
  aos cumprimentos
tributários
  do aniversário

Telefonemas uns poucos, nem tantas as mensagens. Era reservado, ou, como brincava, deletério. Em despontando o natalício, não sabia ao certo o que fazer, ou como se portar. É certo que não mais sabia (se já o soubera) receber afeto; não o merecia. Não julgava difícil esconder o desconcerto perante uma mensagem afetuosa; uma parte delas, poucas como fossem, soava perfunctória: eram lembradas as pessoas por seus dispositivos digitais e, apesar de não os consultarem, assaltava-as o lembrete. Um rápido alô não custava tanto, era tudo quase automático; não estariam realmente interessadas em como reagiria. Também percebeu—ao baixar a guarda certa vez e expor alguma preocupação durante um telefonema comemorativo—que as pessoas preferiam que estivesse bem, que desse aos acontecimentos a interpretação de que eram positivos, de que mostravam progresso financeiro, social, emocional; não lhes interessava que estivesse mal, e seus comentários—pelo menos está tentando, que bom que tudo está se encaminhando—impunham à situação a melhor luz possível. Não sentia que tentassem animá-lo; havia uma pressa, uma recôndita rispidez, uma recolhida impaciência na voz; resguardavam-se a si mesmas de que estivesse mal, de que lhe tivessem de prestar auxílio. Doeu-se amiúde. Mas passou a se sentir mal por se sentir mal: compreendia agora que as pessoas, cada uma, têm sua própria dor. A tia com problemas de saúde, o amigo financeiramente confortável mas laboralmente alarmado, o alcóolatra em recuperação, o passamento recente de próximos entes. Que direito tinha de lhes impor que dele se ocupassem? De lhes exigir que não doessem por si, quando mal se conseguiam suportar, para dele tratarem? De que também ele sofresse, e as fizesse sentir impotentes perante mais esta miséria? Esmerava-se. Coreografava (com o mais fundo suspiro que se pudesse fazer em silêncio) a felicidade de cada obrigado, de cada resposta. Publicara mesmo, este ano, a convidativa foto de uma fatia de bolo de chocolate. Vinham as mensagens protocolares: também quero, nem convida, etc. Mas a mensagem que legendava a foto—copiadas do mesmo lugar, diga-se de passagem—explicava o prazer de se apreciar e celebrar.