esquisitinhos

do conceito de beleza

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
do conceito de beleza

certo sujeito a leveza
  e espírito são
derivara de abrir mão
  do conceito de beleza

Meio em troça, perguntara: “Por que são tão feios os animais pré-históricos?” Há muitas respostas, contestou-lhe o amigo; ao mesmo tempo, nenhuma, pois beleza, objetivamente falando, não existe. Noite adentro — era junho, frio demais fazia para retornar à casa, e intimidade havia para que se deixasse ficar — , variaram a pergunta, buscando-lhe mais plausível forma, a fim de justificá-la de algum modo. Entre a pauta, a ceia e o vinho, disse-lhe o amigo com voz que não antes ouvira: “A beleza desperta o desejo, mas à beleza não se pode tocar. O sexo é para os demais sentidos; por isso é feito de olhos fechados.” Apoiou-se-lhe ao ombro para se levantar e pegar mais vinho (reclinavam-se ao chão, entre almofadas), e as camadas de amizade, intimidade e calor do toque aportaram-lhe estranhas ao corpo. Nunca antes estiveram tão próximos; tentara o amigo, mas nunca lhe parecera atraente. Não era seu tipo, como se diz. Aquele canhestro que o desejara sem saber como mostrava-se confiante e seguro, longe talvez do desejo. “Não lembro de me haver percebido em prazer de olhos fechados”, provocou. “Um toque se basta a si, sem as armadilhas do olhar”, devolveu-lhe o outro; “Quer provar?”, emendou, um tecido negro entre as mãos. Concedeu-se vendar. Roçou-lhe o amigo as pontas dos dedos ao rosto; desenvolveu-as pescoço abaixo, camisa adentro. Soprou-lhe ao ouvido, nuca abaixo. Por sobre a pele, aos poucos despida, amplo e suave espraiou-se. Aproximaram-se. Às escuras, as mornas mãos e a irrestrita pele do amigo introduziram-no a segredos somente conhecidos por Tirésias — que homem e mulher fora, e que cego os soubera.