esquisitinhos

dormindo um bebê

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
dormindo um bebê

Toma certa mulher
sempre sustos quando vê
no colo das mamães
dormindo um bebê.

Sentia-se vulnerável em consultórios. Em outros lugares, tinha como se desviar, como não olhar; em lugar de onde não poderia sair até ser chamada, era questão de tempo até entrar alguma recente mamãe, rebento ao colo. Tentaria ao máximo não olhar, mas não lhe era possível. Sempre a mãe a atormentara com a tal moleira: cuidado ao segurar o priminho, é frágil a cabeça, apóie-a. E as estórias: os leves resvalos, os diminutos deslizes, as sempiternas seqüelas. Afligia-a a flácida fragilidade destes pequenos seres, incompletos nascidos, por inteiro dependentes do amor que lhes tivesse quem os dera à luz (novamente, as estórias: pai desconhecido, encontrado na lata do lixo, jogado contra a parede, passado ao fogo em honra a Moloc). E as fantasias. Acalmavam-na sempre os mesmos devaneios: sozinha, em hospital isolado, silencioso, frente aos tenros corpinhos, cuidadosamente plastificando-os dos pés a cabeça com grossa e transparente síntese de suas protetoras pesquisas. Da fantasia, porém, pouco durava o amparo: respirar precisa a pele, transpirariam as crianças, sentiriam calor; a proteção que divisava era uma forma de tortura; seu especial amor, uma vingança. Sentia-se louca. Sufocava a respiração para não chorar ou gritar. Três pessoas mais e será sua vez. Até agora, mamãe alguma. Respire fundo, só mais um pouco. Só mais um pouco.