laudas

e heterossexual

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
e heterossexual

alvoroço
a certo moço
a vida inteira
fizeram as frutas na fruteira

contra a reprimenda contumaz
renhia o rapaz
que era “normal”
e heterossexüal

Em criança, as perguntas: as bananas, que barulho fazem? Quem faz mu, tangerina ou tamarindo? As vacas, filho, pacientava-se o pai. São os animais que emitem sons, não as frutas. Não sabia, não poderia saber que algo havia genuíno nas indagações onomatopaicas do rebento. Dissimulado, desdenhava o garoto os carrinhos espalhados pelo chão da sala, coleções desenhando de vestidos, requintando de cores jardins perfumosos a lápis; chegava o pai da feira com as compras, e recorriam ruidinhos, sempre e invariavelmente da fruteira advindos: baliam limões, mugiam maçãs, latiam melões, miavam romãs. Por que fazem isso, indagou-lhes um dia, quando se viu com as frutas a sós por um instante. Não se faça de desentendida, Gertrudes! (uma das peras). Só falta sair flutuando sala afora, meiga e moçoila, mas vira a cara para as colegas! Aproveite que a mamãe está fofocando com a vizinha, e aperfeiçoe esse glamour ainda intocado com aquele novo par de Scarpins que ela comprou semana passada (sugestão das goiabas, assoviaram graviolas secundando). E tal lhe foi a infância, adolescência, vida universitária. Dietariamente consciente, não se eximia a comprar as mais orgânicas frutas que as feiras de agricultores familiares lhe concedessem, mesmo tendo de ouvir os gracejos. Camila, me escolhe! (um afrontoso abacaxi). Priscila, me apalpa! (alguma fruta-do-conde, algo que jamais comia). Graziela, me agasalha! (carambola marota, praticamente saltando-lhe ao colo). Já acabou, Jéssica? (acerolas adjacentes ao abacate que acabara de pesar). Custava-lhe já muito, sem dúvida, de si esconder os desejos que, segundo temia, problemas trariam; amansar trejeitos, retesar a tessitura, acalmar o coração a cada novo colega de classe que, manso e amistoso, desse-lhe um oi. Porcamente domava a própria confusão interna, tinha ainda de contender com angiospermas assanhadas. Calem-se! (Morando agora com colegas sempre vazios em ocupada república, tinha mais tempo de discutir com os hortifrúti.) Que pensam que estão fazendo? De onde tiram essas conclusões se as comprei hoje? Que sabem de minha vida para fazer insinuações dessa natureza? A vida passamos em meio a frutas—invariável a resposta, exceto por leves temperos entonacionais—, como não reconheceríamos uma de nós? Vamos lá, Margarida! Já está na hora de abrir os portos às nações amigas! De liberar os fundos dos cofres públicos aos investidores! Empresas de todos os portes—pequenas, médias, grandes, multinacionais talvez—esperam estes pomposos recursos! Arqueólogos de todas as lavras estão com as ferramentas em mãos, prestes a escavar esse amor fossilizado e cultivar conhecimento, culminar descobertas, acumular tesouros! Acham-se espertas, mas são umas cafonas, rouca a resposta. Isso lá é coisa que se diga? Tem razão, Magnólia (alguma uva recôndita num cacho); ao invés de perder tempo conosco, deveria estar fazendo ângulos retos com as nádegas para os marinheiros singrando os banheiros públicos desta infinita metrópole. Algazarra ao corredor—algum colega retornava à casa após as aulas. Silêncio, por favor, suplicava. Às vezes, não sem compaixão, aquiesciam amoras, ameixas, cerejas, toranjas, pitangas, laranjas, lichias, mirtilos, morangos. Por mais uma noite, a dissonância discente sufocaria as vozes veladas, as veludosas vozes, as volúpias vegetais que ouvia. E se perguntava até quando.