laudas

e sem calcinha

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
e sem calcinha

artífice havia
  que o formão vendera, o buril e a goiva
contemplando da casa a janela sozinha
  da janela jogou-se vestido de noiva
e sem calcinha

Incessantes trabalhara durante dois anos. Quantas encomendas pudesse entregar aceitara. Não havia feriados, dias santos, domingos. Não havia descanso, encontros com amigos, reuniões familiares. Economizara quanto pudera. Teriam de durar as calças, esticaria o gasto prazo dos sapatos, dos tênis sem cadarço, puídos os tecidos de camisas e calças. Para o restante do valor necessário, a venda de quanto possuía na oficina, a preço não precisamente exato, não exatamente justo, mas conforme o orçamento. Na manhã seguinte ao final fechamento da oficina—já inteiramente desocupado, destituído de emprego ou relações de qualquer natureza—, vasculhara publicações femininas; atentava aos tecidos, aos detalhes, à leveza dos vestidos; ao próprio corpo de homem—rijo pelo labor, menos curvilíneo que os das modelos—; pensava nos ajustes necessários, no quanto frustrariam o projeto inicial de cada vestido. Decidira-se, enfim. Fora à costureira; suportara-lhe olhares, meias perguntas; lembrara-a que era cliente pagante, não lhe cabia questionar motivos, mas seguir desígnios. Ao cabo de semanas, as provas. Mais alguns dias, o vestido concluído. Subira ao apartamento, já quase sem mobília. Vestira-o. Admirara-o frente ao solitário espelho: vestido de noiva, puro, alvíssimo, perfeitamente ajustado a seu corpo de homem. Esquecera-se de vestir a calcinha de renda que comprara; não mais a queria, estava muito bem sem. Admirou janela afora a vista; durante mais de década, vira-a transformar-se, sem a notar, sem se sentir por ela notado. Corpo serenou, e alma. Respirou o melhor ar do cosmos. E se atirou janela afora rumo à calçada.