esquisitinhos

era ceifá-lo jamais a Morte

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
era ceifá-lo jamais a Morte

impossível fortuna
e improvável sorte
a vida importuna
  tornavam de certo senhor
  cujo desmedido horror
era ceifá-lo jamais a Morte

O refinamento dos instrumentos para identificação pessoal, de modo a oficializar perante o Estado os mecanismos de referência única e exclusiva, foi-lhe somando complicações burocráticas às emocionais. Os problemas tradicionais de reconhecimento, tais como reconhecer Electra Orestes, não reconhecer Jocasta Édipo, ou reconhecerem-se pelos escudos dois cavaleiros, eram coisa da remota juventude. Agora, tinha de se ver com empreendedores submundanos e identidades falsas, com fingidos passaportes para pular de país em país. Ver morrer os muitos e muitos mundos com os quais convivera era um problema menor—recorrente, infinito, mas menor. Ser preso e revelar ao cosmos que, para ele, prisão perpétua não seria hipérbole judicial era mais urgente, e sempre o impedia de chorar seus muitos e muitos mortos. Desastrada a Morte. Desajeitada, tosca, incompetente. Quantas vezes a vira (ou fizera) se aproximar; quantos tropeços, quantas vezes dera com a cara em uma porta de vidro, ou parara para tirar das negras vestes dejetos de pombo. Que importância tem isso, perguntava-lhe? Faça seu trabalho e se limpe depois! Preciso limpar-me, era a resposta; não suporto fezes. Acho que torci o tornozelo, deu-me cãibra, rompeu-se-me o ligamento. Você não tem músculos, nem ligamentos! De nada adiantava arrazoar. Recusava-se a escutá-lo. Voltaria outro dia, promessa é dívida. E lá se ia a Morte—manca, resmungando, chuviscando um choro entre o fingido e o real—; cá ficava, vivo, sempre vivo, envelhecendo a passos piedosamente mais morosos que o normal. Mas envelhecendo. Quantos nonagenários milênios teria de aturar se a outra não se apressasse? Preocupava-se. Corria aos doces, recorria ao álcool. Viver era bom. Ainda.