esquisitinhos

era nadar em melancias

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
era nadar em melancias

Certa jovem havia
cujo anseio ousado
a ninguém confessado
era nadar em melancias.

Não o podia evitar. Tampouco talvez o desejasse. Que mal havia nisso? A quem ferira por desejá-lo ou por não o confessar a ou-trem nem extirpar de si? Cedíssimo sempre visitava as feiras—preferiria fazê-lo aos domingos ao fim de tarde, como prazenteiro passeio, mas não funcionam assim as feiras, então teria de ser pelas mal-despertas manhãs—, prazerosa passeando entre os vendedores e seus expectantes vegetais. Esperava descobrir, entre ansiosa e falsamente surpresa, o reduto das melancias. Desejava com ardor que estivessem cortadas, que lhes pudesse ver o gélido vermelho onde se desejava perder, onde talvez se afogar em morte feliz (que mais havia se o que mais desejava era impossível?). Comprá-las, às vezes; comê-las, raramente. Desejava-se inteira e nua mergulhando em refrescante melancia. Desejava-se sorvendo a largas braçadas seus saborosos entornos. O máximo, porém, que alcançava com as que existiam no mundo era comê-las com a cara fundo enfiada na côncava meia-fruta, ou talvez as mãos e os cotovelos abluir (com certa dificuldade aerodinâmica) em melancia bem gelada, que a noite inteira lhe aguardara o toque. Assim desperdiçar alimento a punha, porém, em conflito moral. Durante os mais enfáticos verões, sofria em meio ao gélido e salgado mar, chorando desejos que muito a apraziam, e que muito bem sabia idiotas.