esquisitinhos

eterno ficando em silêncio

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
eterno ficando em silêncio

certo sujeito havia
chamado Inocêncio
que a inteira vida
  de tanto escutar
  desaprendera a falar
eterno ficando em silêncio

Muito havia por compreender, sempre. Muito por escutar. Não alcançava transparecer os próprios pontos de vista; muito havia no campo alheio de visão, muitas próprias percepções e intransmissíveis sentimentos, múltiplas mágoas, prefixados preconceitos e incontáveis interesses. Não era possível estabelecer um campo neutro de debate, um ponto de vista comum a partir do qual mirar problemas e discórdias. Duvidava das próprias razões, inalcançava a intransigência das razões alheias, e ficava sem saber quem de fato intransigia. Sentia claramente que menos má vontade havia de qualquer das partes que uma quase inata inépcia em perceber a alheia perspectiva. Não poderia julgá-los por o não compreenderem, não lhes saberia fazer vê-lo como se sabia — inocente, incapaz de maldade, desejoso em ajudar. Deixava-se ouvir. Buscava aproximar-se do horizonte alheio pelas palavras; sequer perguntava, para o não distorcer ou alterar (também lhe ocorrera que mudavam as pessoas de opinião e valores em meio a discussões, conforme giravam as razões em torno a eixos de emoções feridas e ferrenhos interesses). E foi se acostumando. Não fazia sentido fazer sentido. Ouvir facilitava. Deixar-se estar o protegia, não do sofrimento — este era unânime, ubíquo, onipresente — , mas de duvidar de si. De enfraquecer-se pela própria justiça, uma vez que sempre julgava ser o único a buscá-la. Guardava-se em si. Aquém dos ódios. Das dores. Do sentido. Pensavam que era mudo — talvez já o fosse, já não sabia se ainda se lembrava como falar — , buscavam-no por meio dos cartazes, das libras. Não o alcançavam. Não o alcançariam. Como ele a eles.