duas havia
raparigas
  que a vida inteira
  e muito à sua maneira
foram amigas

O mais comovente momento da amizade entre Mafalda e Susanita é certamente uma tirinha na qual discutem como podem ser amigas se não se suportam; Susanita (logo ela), num raro arroubo de tortuosa ternura, diz: Se tiver de não suportar alguém pelo resto da vida, que seja você. Ao deparar-se, ao final da velhice, com a referida tirinha, lembrou-se Perduta de Amata, sua antiga e muito amiga. Durante os anos escolares, não eram próximas; trocaram cordialidades, e talvez hajam conversado no recreio. Mas Perduta, já debutante, encetou namoro com o único homem de sua vida (não se pense nisso de forma trágica, como logo se verá); era demasiadamente belo, quase demais para qualquer uma. Amata, cedendo a impulsos não mais pueris, não muito adultos, achegou-se-lhe, e ficaram amicíssimas tempo o suficiente para que surrupiasse o rapaz. Como perdoar semelhante traição? Em parte, sentiu Perduta que deveria ser justa—afinal, o namorado assim roubado acabara se casando mui seriamente com a ladra. Fora, inclusive, cerimoniosamente convidada à cerimônia, com especial pedido de desculpas, e resolveu comparecer; foi quando retomaram contato. Poucos anos tardou até que o belo casamento entre os belíssimos noivos cumprisse as promessas todas que semelhantes bodas—mais elaboradas que uma ópera—fazem aos atentos que ignoram a coloratura da soprano para distinguir, mui ao fundo, o baixo contínuo: não se amavam com nenhuma profundidade, assediam apenas ao brilhante futuro que viam refletidos nos olhos de quem os visse. A beleza do rapaz, que tantas e tantas benesses lhe prometera desde o espelho ou desde os entredentes de parentes, amigos e estranhos, provou-se moeda deflacionária; sem os confortos dum diploma universitário ou as facilidades da fama, viu-se agrilhoado a empreguinhos manuais que logo descambariam qualquer Adônis em Tersites; tornou-se um ébrio, e na bebida buscou esquecer aquela beleza ingrata que amava e que o abandonou. A esposa, a esta altura, já o chamava Dostoievski: seu crime e seu castigo. Perduta, vendo do que se livrara, surpreendeu-se ao perceber os cravos-de-defunto da gratidão brotando da campa coronária onde enterrara o amor pelo moço. Encontraram-se, talvez por acaso, numa feira, e prontamente ofereceu à ex (e agora futura) amiga um ombro onde chorar. Amistaram-se novamente, pois Amata fora tocada pela presteza e solidariedade daquela a quem tanto mal fizera, e Perduta pela possibilidade de recorrer à misericórdia como vingança: embora não se mais sentisse no direito de julgar a outra, condenava-a. Sua simpatia, seus abraços, seus conselhos, seus atentos ouvidos e estendidos braços eram todos voltados a dissuadir Amata de qualquer linha de pensamento que levasse ao divórcio: Roubou-mo, carregue-o. Bebia o não-mais-belo, o não-mais-rapaz; bebia demasiado; bebia na rua e em casa, era deitado fora de empregos mequetrefes ao ser flagrado bebendo em serviço. Existem muitos tipos de bêbados: os cômicos, os chorões, os anedóticos, os discursivos, os telefônicos, os violentos. O esposo de Amata certamente pertenceria ao último grupo, se tivesse qualquer resistência à bebida. Uma garrafa liquefazia-lhe a dicção, com duas já não andava bem, na terceira erguia a custo os braços e, na quarta, poderia vir a óbito se vomitasse. (Sabe Deus que anjo-da-guarda propiciava que chegasse, e sempre chegava, à sexta—garrafa ou feira.) Ficavam-lhe no olho os fumos duma fúria que não tinha nem voz nem motricidade para externar. Ainda talvez pensando em como a esposa planejara meses a fio para obtê-lo, na ausência de veículo para o ódio, tentava ser mulherengo, mas (tais anedotas chegavam sempre aos úmidos ouvidos de Amata e aos calorosos braços de Perduta) as mulheres que acossava mal conseguiam irritar-se, exceto talvez pelo hálito. Tão confuso se tornava, que, certa feita, dera em cima dum rapazola que fora ao bar à procura do pai; dizia-lhe—pelo que puderam apurar os filólogos de plantão e lingüistas forenses à paisana—que tivesse paciência, logo despontariam-lhe dois belos seios, e, se não despontassem até a maioridade, ele mesmo pagaria os implantes. O rapaz, filho experimentado de bêbado, selecionou prudentemente a piedade em lugar da raiva, e respondeu apenas que precisava ir ao banheiro, seguro de que, em segundos, sequer se lembraria o outro de que conversaram. De porre em porre, de anedota em anedota, de fiasco em fiasco, de briga em briga, seguiram-se os anos em emocionante mesmice, numa rotina de perpétuas confissões, reiterados perdões, repetidas sinceridades: Amata não saberia o que fazer sem o apoio de Perduta, e esta já se via como salvadora duma desgraçada que chafurdava na lama do porco que lhe roubara. Talvez, porém, antecipando a que seria sua última demissão, tomou o esposo preventivas providências, acidentando-se fatalmente em horário e local de trabalho após haver batido o ponto. No enterro, mais que amigas, mais que irmãs, mais que uma única alma, nos recíprocos ombros carpiam Amata e Perduta, chorando copiosamente, sem saber se por si, pela outra, pelo defunto. Ao deixar em casa a viúva, reiterou Perduta sincera e calorosamente que sempre, sempre estariam juntas. Amata não poupou sinceridade em ser recíproca. Falaram-se brevemente ao telefone no primeiro aniversário de falecimento, e nunca mais se viram.