laudas

Gilgamesh

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Gilgamesh

certo turista
  em Bangladesh
  enquanto mexe
na revista
eis avista
  Gilgamesh*

Pesadelos desconhecem geografia. Ao visitar Stonehenge, por alguma transversal ou travessa associação (das que sua fome lógica exigia e alimentava), sonhou, como Borges, com um horrível rei norueguês, cujo rijo silêncio destroçou-lhe o sono; sobressaltou-se, acordou enfim, e não se podia perdoar por errar em sonho tão grosseiramente as geografias (só aos evangelistas perdoava semelhantes deslizes, pois a língua de fogo do Espírito provavelmente queimara quaisquer mapas da Palestina de que dispusessem ao redigir). Repetia-se agora o terror do rei em solo errôneo, mas em plena vigília. Em Daca, Bangladesh, cidade das mesquitas, não o inundara a visão da Caaba, sentira tampouco o abraço do anjo que, asfixiando, forçara Profeta afora as primeiras palavras do Sagrado Alcorão. Concentrava-se em uma revista local, curioso da língua e do pitoresco alfabeto, quando uma antiquíssima presença—mais terrível que antiga, mais triste que terrível—, cresceu a seu lado no banco. Virou-se: sentado, gigante, recurvo, sombrio, dolente, mesopotâmico um homem. Não lhe fazia nenhum caso, e portanto sentiu-se livre para investigá-lo em despudorado detalhe. Discernia-lhe, no forte corpo (desgastado embora), o tríplice aspecto e peso das várias línguas que progressivamente o compuseram: sumérios os pés, assírio o espesso peito, inteiramente acádia a cabeça. Não duvidava: cartesianamente sabia que tinha, a seu lado, Gilgamesh, o rei, o construtor da muralha de Uruk; o que o abismo vira; o que lamuriara Enkidu amante, e aprendera de Uta-napishti, o proto-Noé. Cobria-se mal: desajustava-se-lhe sobre o corpo a pele de um leão. Era claramente o rei em peregrinação, após a morte do muito amigo. Que fazia ali? Que estágio de sua via crucis cumpriria nas beiradas da Baía de Bengala, tão longe da nativa Mesopotâmia, do Iraque original? Desejou perguntar; quase quis consolá-lo. O peregrino Gilgamesh—que ainda não chegara a seu final destino em busca da malfadada imortalidade—, não era ali imorredouro semideus, apesar dos milênios, mas tão somente um insone. Não morria, não por lhe haver concedido Uta-napishti a imortalidade, mas porque não conseguia dormir. Vendo-lhe a bem-feita (descomposta embora, e rarefeita) cabeça, jurava discernir nas rugas algumas runas; puniu-se, corrigiu-se: a escrita dos acádios era cuneiforme; as runas pertenciam ao rei de Borges, que partilhara em pesadelo. Na confusão, porém, perguntou-se: com que reis sonharia Gilgamesh? Inspecionou-o mais alguns minutos; perdeu interesse. Deixo-o com seu sofrimento. Preciso almoçar. Afastando-se, recuperando o entusiasmo para as visitas e fotos da tarde, um último pensamento desgarrado o assaltou, quase à porta do restaurante: Devo parar de sonhar com reis.


Nota autoral: segundo Jacyntho Lins Brandão, autor da mais recente tradução do épico acádio para o português, Gilgamesh é nome paroxítono; segundo as rimáticas urgências geratrizes do presente argumento, infelizmente foda-se.