esquisitinhos

a história natural da matemática

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
a história natural da matemática

exegeta havia
que alcançaria
  vitória anormal e emblemática:
escreveria
  a história natural da matemática

Nunca, jamais, nem na mais abobada infância lhe ocorrera duvidar da realidade objetiva de números e equações. Como é possível que uma laranja ao lado de outra não sejam duas? Tampouco gostava que alguns números fossem considerados naturais; se as frações existem objetivamente, menos não são naturais que os números inteiros. Seguramente, às vezes sonhava que apenas parte da matemática fosse natural: 2 é  uma indubitável realidade; ½, nem tanto. Nada pode ser metade de si senão para um olhar que perfaça afinidades e dê conta do histórico; meia laranja é uma unidade, exceto para o olho que mantém memória da laranja inteira, e compara o que leva à boca com o que apanhou da fruteira. Rendia-se, contudo, à filogênese numérica: se é real a fissão, também a fração. O desejo de conhecer a matemática em sua pureza cósmica era frustrada pela ausência de leituras relevantes: as histórias da religião eram sempre a história das representações humanas de ritos e divindades, não o objetivo relato do que se passara a entes supranaturais; igual lapso padecia a da matemática. Desejava gerar uma história evolutiva da realidade fatual das relações entre grandezas. Assim, poderia justificar ou mesmo corrigir as especulações matemáticas existentes; poderia testar quanto de realidade, quanto de nomenclatura irreal (útil embora) existia nas teorias. Questionavam-no sobre a evolução natural da matemática. Contestava, pitagórico, ateíssimo: Deus era uma realidade a pronta-entrega, não os números. Parecia-lhe implausível que todo o complexo nem sempre tautológico das diversas disciplinas matemáticas saltasse pronto e acabado do nada, esperando simplesmente ser descoberto e descrito por uma pitada de gregos e árabes. Ademais, era evidente que o natural evolui, muda, cresce e se diversifica: √-2 não podia haver surgido ao mesmo tempo que 2, ou que o (2+2) (repare-se que assim mesmo dizia: surgido, e isso nada teria em tese a ver com quando fora descoberta ou postulada); a fração e o hotel de Hilbert—o infinitesimal e o infinito—não podiam ser gêmeos dos números naturais, sendo estes provavelmente primeiros em um universo já minimamente encaminhado. Essa ressalva era importante: os naturais eram os primeiros entre os números, mas não em sua forma visível e cognoscível. Hipotetizava que, em um universo em busca da expansão de sua entropia, a matemática nascera com a álgebra: naturalmente, o caos não era natural, inteiro nem racional; não seria senão variáveis. Embora se orgulhasse desse assombroso começo, bem sabia que assim proceder ainda era especular. Não saberia coletar evidência empírica que embasasse a tese; não dispunha de meios para não espelhar os procedimentos especulativos que desejava refratar, talvez refutar. Números não fossilizam, nem deixam impressões químicas. Números contam a matéria, mas fazem parte dela? Onde buscá-los? Branco permanecia à mão o caderno onde empeçaria a assanhada obra, exceto pelos dizeres: No princípio era a álgebra