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diário

inexistentes, dois buquês

. 4 minuto ler . Written by Fabiano Sei
inexistentes, dois buquês

Duas memórias misturam-se aqui, dois descontínuos momentos, frouxamente filiados, da infância afilhados, da deveras televisiva infância. Unem-nos menos a criança de que foram parte ou a televisão que os participou que seu cerne diegético: cada qual é centrado num buquê que não houve; um poderia, outro talvez deveria haver existido; um nunca nasceu, forçou-se o outro a nascer da força da própria ausência. Mas é a ausência que os une: seu ser é não ser.

Antes de conhecer as personagens de Charles Schulz pelos quadrinhos jornalescos onde se originaram, conheci-as pela televisão. Os desenhos animados da turma do Snoopy (talvez por uma questão de marketing, era o beagle a protagonizar onomasticamente a animação, não seu dono) eram regulares no meu início de tarde. Algum episódio versava sobre a fixação que Lucy van Pelt—irmã de Linus, o menininho perpetuamente atrelado ao cobertorzinho azul-bebê—nutria pelo beethoviano Schroeder. Num breve esquete dum desses episódios (hoje, conjeturo que eram provavelmente inspirados em tirinhas originais de Schulz), ocorre a seguinte troca:

[Schroeder, recurvado, tocando Beethoven em seu pianinho; Lucy, sentada no chão, reclinada sobre a cauda do piano:]
LUCY: Por que nunca me mandou flores?
SCHROEDER: Porque não gosto de você.
LUCY: As flores não se importariam…

Creio que que a animação, em seu original estadunidense, era vozeada por crianças; não assim no Brasil, que preferiu atores adultos. Nossa escolha foi melhor, considerando-se que Schulz foi o primeiro, segundo creio, a desenvolver personagens infantis com atitude e vocabulário adultos—mais tarde, de seu labor brotariam a Mafalda de Quino e o Calvin de Bill Watterson, igualmente adultificados. Talvez se um pouco perdessem as nuances deste diálogo, se vozeadas por atores jovens demais para elas; guio-me aqui por uma memória emocional de algo que não creio possa rever: apesar de aberta, explícita e direta, a indagação de Lucy não me soou como se contivesse qualquer desafio ou desejo de enfrentamento; talvez alguma ligeira mágoa, mas nenhuma emoção predomina, nenhuma se permite usurpar a semiose da pergunta; não menos direta, a resposta é igualmente destituída de ódio, raiva, derrisão ou desprezo; concentrado em sua execução, sem erguer a cabeça ou parar de tocar, limita-se o menino a responder de modo quase automático. O que sempre, porém, chamou-me a atenção foi o tom certeiro da réplica. Segundo me lembro, era antes melancólico que espirituoso; não parecia interessar à menina a vitória simbólica de uma resposta bem-elaborada frente a uma ofensa pessoal; era antes uma reflexão sincera, talvez sentida. Não foi senão recentemente que me ocorreu que o sujeito gramatical disfarça outro, oculto: quem não se importaria não são as flores; tanto gosta dele, que mesmo um gesto falso de sua parte teria, para ela, o mais verídico significado. A esta esperteza retórica sempre ofuscou a beleza do pensamento literal: as flores não se importam. Quando se lhes ofertam, não importa às flores o que sente o ofertante; esgotam sua alegria na beleza da oferta, qualquer que seja.

As segundas flores concretizaram-se de fato, mas sua inexistência nunca deixou de existir. Trata-se de uma cena que vi apenas uma vez; não sei precisar qual o programa, quais os atores ou em quais circunstâncias: era uma comédia brasileira serializada sobre uma família—muito provavelmente, tratava-se de algum reprise especial da primeira versão d’A grande família, que foi originalmente ao ar a meados dos anos 1970. (Do mesmo programa, lembro-me de um episódio versando sobre a instalação de um ar-condicionado; não instalado ao final, fazia a família fila em frente ao buraco aberto para comportá-lo, a fim de se refrescar na brisa que coava.) A cena em questão era um jantar: algum convidado fizera a fineza de oferecer um singelo buquê de flores (rosas, creio) a todas as mulheres à mesa; ao reparar no insistente olhar da doméstica, que acabara de servir a refeição, mas permanecia parada junto à mesa, algum dos homens—imagino que membro da família, suponho que interpretado por Gianfrancesco Guarnieri—pergunta-se se a cara amuada que faz se deve ao fato de não estar comendo com eles; em tom jocoso, afirma que é possível acomodá-la, se todos se espremerem um pouco; sem mais conseguir conter o choro, diz a doméstica: É que eu fui a única que não recebeu flores. Retira-se, então, às pressas, para chorar na cozinha; visivelmente sem jeito, levanta-se o florido conviva, pede licença a cada uma das mulheres, retirando de seus ramalhetes uma rosa, para ir à cozinha entregar o multicolorido buquê assim composto à última mulher da casa.

Contrariamente à primeira cena—feliz em sutilezas, mais felizmente ainda dubladas em português—, esta faz do óbvio sua riqueza: a franca expressão da tristeza, em lágrima e palavra. Não sei o que mais me comove: se o esquecimento, ou o ser obrigada a confessá-lo em público, sem conseguir resguardar a mágoa; à humilhação do olvido agrega-se a publicidade da dor. Lembro que mui grata e comovida aceitou o corretivo buquê, que lhe foi levado privadamente à cozinha; esta felicidade causa-me ainda mais dor; não que não lha desejasse—pelo contrário, creio que nutro por esta personagem, que mal me passou ante os olhos, um amor condoído—, mas a felicidade de vidas mui tristes não deixa de causar certa tristeza.

A estas duas faltas, por hora, e à guisa de conclusão, agrego uma terceira: falta-me um modo de delas extrair uma lição comum. Sei como me sentir perante cada uma, não sei o que dizer perante as duas juntas. Talvez, porém, não seja necessário oferecer ao final um feixe terceiro de flores morais: imprima-se este texto num rascunho, utilize-se os papéis para embrulhar um terceiro buquê vazio.