esquisitinhos

invariante o mesmo sonho

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
invariante o mesmo sonho

Certo moço havia
cujo encéfalo enfadonho
toda noite lhe trazia
invariante o mesmo sonho.

Ponderaram não poucos terapeutas sobre o significado do sonho; não menos se enfadaram com as consultas, monótonas, monotópicas. No sonho, senta-se ao meio-fio, vara de pesca ao ombro; anzol atira, que plácido mergulha no asfalto. Iam e vinham carros, ônibus, caminhões. A certa altura, uma carroça puxada por esquálido jumento lhe chamava a atenção. Linha e anzol deixavam-se estar, submersos no asfalto, peixes esperando que os mordessem e puxassem; traspassavam a linha os veículos como se ali não estivesse. Jamais pescara um peixe, jamais passara um nano-segundo do ponto em que uma senhora se punha a seu lado para atravessar a rua. Poderia passar várias sessões descrevendo-lhe o vestido, tantas vezes o vira. Quando o assolava o sonho em horário semiconsciente, conseguia mudar o foco do olhar, e perceber pormenores. Assim decorara em detalhes a senhora, assim memorizara as cores e placas de cada carro que passava. Não alcançara jamais identificar o que sentia ao sonhar. Não possuía memória de quando se iniciara o sonho, de quantos anos fazia que o sonhava. Agendaria um lacaniano assaz teorético de renome. Quem sabe agora…