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línguas naturais e sexualidade: o que realmente impede a formação de uma fala inclusiva

. 6 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
línguas naturais e sexualidade: o que realmente impede a formação de uma fala inclusiva

Existe uma discussão corrente sobre o uso de uma linguagem mais inclusiva, que permita que pessoas não-binárias se sintam representadas na língua portuguesa, e também que possamos nos referir a pessoas sem especificar seu gênero, e sem acatar o masculino como neutro.

Sou absolutamente favorável a essa iniciativa; mesmo assim, existem fatores de ordem puramente lingüística que devem ser levados em consideração; há problemas de concepção do funcionamento da língua e dos processos de variação e mudança lingüística que tanto apoiadores quanto detratores da linguagem inclusiva parecem desconsiderar. Meu objetivo neste artigo é esclarecer alguns pontos importantes, para que as pessoas interessadas em desenvolver uma língua portuguesa inclusiva possam compreender que tipo de tarefa estão se propondo, desde um ponto de vista lingüístico.

Estabelecendo o problema

A língua é um fenômeno social. Isso quer dizer que a língua varia e muda conforme transformações ocorridas nas sociedades que as falam. Geralmente, as mudanças ocorrem desde a fala das camadas menos letradas da população até a escrita formal, mas não é universal. A escrita pode, também, influenciar a fala—especialmente em se tratando de termos técnicos e eruditos.

Tanto no português padrão quanto no português falado, existem dois gêneros: masculino e feminino. O português não conta com gênero neutro. O gênero masculino é considerado, para uso geral, neutro. Assim, se houver dez mulheres e um homem em um grupo, este grupo será tratado no masculino. (A única exceção que conheço é o socioleto dos homossexuais masculinos; neste, no meu entendimento e da minha experiência, o feminino pode assumir a função de gênero neutro. Mas talvez nem todos enxerguem dessa forma.)

Se, por um lado, é verdade (como apontam alguns puristas) que gênero gramatical não deve ser confundido com sexo biológico nem com identidade de gênero, é igualmente verdade que existe, sim, alguma confusão entre os dois campos. Uma cadeira ou um abajur não têm sexualidade; usar o feminino e o masculino é questão gramatical, ou seja: nestes casos, nem o artigo nem a terminação das palavras parece carregar o traço [+feminino]. O mesmo não pode ser dito de a menina, a governadora; aqui, é evidente que marcação sufixal e artigo designam alguém do sexo feminino, e portanto carregam o traço [+feminino].

Assim, embora o gênero gramatical seja uma realidade distinta da sexualidade humana (existem línguas como o sueco, cujos gêneros são o comum e o neutro, línguas com mais de vinte gêneros e línguas sem gênero algum), a sintaxe e a morfologia da língua portuguesa foram, ao menos parcialmente, calcadas na divisão dual dos gêneros que, até bem pouco, dominou nossas estruturas de pensamento sobre a sexualidade. A língua, como fenômeno social, gerou repertório lingüístico para expressar esta concepção.

As soluções

Desta forma, a busca por uma linguagem inclusiva gera um certo tipo de pressão sobre a língua. A politização e o espraiamento do debate sobre o espectro da sexualidade humana é uma forma de pressão: a língua não tem meios de expressar neutralidade verdadeira. Neste embate, algumas soluções já foram intentadas, tais como:

  • “Desneutralizar” o masculino através do desdobramento: ao invés de dizer, o homem (no sentido de “o ser humano” ou “a espécie humana”) usa-se a humanidade; ao invés de se dizer apenas todos, usa-se todos(as) ou todas e todos.
  • Empregar o x em substituição a afixos de gênero: usar x meninx ao invés de o menino.
  • Empregar e como marcador neutro: usar menine ao invés de menino ou menina.

A primeira solução não impacta verdadeiramente a estrutura da língua, mas soa trabalhosa. A repetição constante—elas e eles, todas e todos, as presentes e os presentes, etc.—gera uma sobrecarga textual que enfatiza algo que, para o texto em questão, pode não ser relevante. Politicamente, pode-se ver nisso um ganho, mas gera-se uma ênfase secundária, um ruído na comunicação.

A segunda solução tem, como principal desvantagem, a inelegibilidade. O x antes aponta o problema que o resolve verdadeiramente; mais gravemente para quem realmente deseja ser inclusivo, aponta-se que os leitores usados para auxiliar pessoas cegas ou com baixa visão não conseguem processar uma palavra como garotx.

A terceira opção, embora pareça a mais promissora, esbarra em dificuldades que, segundo me parecem, são inéditas na história da língua. É sobre ela que gostaria de me debruçar.

Língua, variação, mudança e ativismo

O que há de tão diferente assim que se dizer todes, amigues, etc.? Para compreendermos, é necessário revisarmos alguns fundamentos das línguas naturais:

As línguas naturais possuem um léxico, ou seja, um conjunto de formas que podem ser sintaticamente combinadas para se gerar seqüências de fala. Este léxico costuma ser dividido em dois grandes grupos: um léxico aberto e um léxico fechado. Ao léxico aberto pertenceriam itens como substantivos, adjetivos, verbos, etc.; ao léxico fechado, artigos, preposições, pronomes, afixos, etc.

Os itens que pertencem ao léxico aberto costumam conter um sentido proposicional, ou seja, um sentido que pode ser parafraseado; o significado de vermelho pode ser descrito por “da mesma cor do sangue”; uma colher é um “utensílio de cozinha com extremidade côncava, utilizado para se preparar ou ingerir alimentos”.

Agora, pense, qual o significado dos itens do léxico fechado, tais como para, com, entretanto? Estes itens não têm, propriamente falando, sentido, mas algum tipo de função, muitas vezes relacional. Para é uma preposição que estabelece uma relação direcional, tanto geográfica quanto metaforicamente (e.g. intenções, utilidade, etc.); com estabelece uma relação de contigüidade ou proximidade, que, novamente, pode ser metafórica; entretanto estabelece uma relação adversativa entre sentenças.

Por que isso é importante? Isso é importante porque, devido a estas diferenças, os processos de mudança e formação de novos itens para cada um dos dois tipos de léxico variam. Existem vários processos de formação de palavras do léxico aberto: justapô-las (e.g. mata-mosca), transformar substantivos em verbos (e.g. cama > acamar), criação de siglas (e.g. Partido dos Trabalhadores > PT > petista), etc. Indivíduos podem criar palavras novas pertencentes a este léxico conforme sua vontade, e estas podem vir a ser incorporadas no repertório da língua. Pense-se nos experimentos de Joyce ou Lewis Carroll na literatura; pense-se no humanitismo de Quincas Borba.

O léxico fechado, porém, forma-se através de um processo conhecido como gramaticalização. Geralmente, um item lexical pleno (i.e. um item pertencente ao léxico aberto) passa por dois processos: o apagamento semântico de seu significado original e a redução fonética de sua forma. Assim, embora surge de em boa hora; seu valor adversativo nada tem a ver com o significado literal da expressão original. Em inglês, começa a surgir y’all (derivado de you all, “vocês todos”), que pode talvez vir a substituir o you em seu sentido plural, resolvendo, assim, a ambigüidade do pronome de 2a pessoa. Este processo, ao contrário da formação de itens do léxico aberto, não pode ser realizado por indivíduos; é necessariamente lento, histórico e coletivo.

Talvez já haja ficado claro o que desejo dizer. A sigla GLS, que passou para LGBT e hoje assume a forma de LGBTQIA+ é formada por escolhas conscientes de falantes, que passam a ser adotadas por uma comunidade. Sua cunhagem e difusão não interferem na estrutura da língua; o mesmo é verdade para termos como cisgênero e feminicídio ou expressões como violência obstétrica.

Ocorre que a demanda por uma linguagem inclusiva não afeta somente o léxico aberto da língua (aquele a que podemos conscientemente incrementar), mas também faz exigências sobre o léxico fechado. Em uma sentença como

Todos os participantes do congresso ganharam camisetas.

o problema não está em participantes ou camisetas, mas na flexão de gênero –os e no artigo definido os. Por isso é tão difícil encontrar uma solução: porque, por mais que tentemos, não conseguimos, como indivíduos (ou como grupos politicamente engajados) alterar o léxico fechado do português. Conseguimos pressionar pela mudança, mas não temos como alterar esse campo.

Se é assim, por que a substituição por todes parece tão viável? Porque, neste caso, não estamos criando nada novo: a desinência –e já existe no português, e, muitas vezes, é comum de dois gêneros: a/o presidente, a/o governante, a/o estudante. Agora, repare que é muito menos intuitivo transformar o artigo masculino plural os em *es. Como se vê, para gerar uma linguagem verdadeiramente inclusiva, teríamos de reconstruir o sistema de desinências, o sistema de artigos (incluindo algumas preposições) e o sistema pronominal. Pode não haver meios de se interferir no sistema da língua de modo tão extenso, muito menos de se impor tais soluções de forma rápida, mais que ao uso escrito, à intuição dos falantes.

(Ao menos, não houve meios ao longo da maior parte da história da humanidade: o sueco avança satisfatoriamente no sentido de naturalizar um pronome neutro, hen; mesmo assim, devemos lembrar que, em sueco, os gêneros masculino e feminino historicamente confluíram para o que hoje se chama gênero comum; seus desafios podem, portanto, ter extensão diferente dos do português, morfologicamente mais carregado em marcas de gênero. Também é importante pontuar que é uma cunhagem a partir de forma já existente em língua aparentada—hen é cunhado a partir do pronome neutro finlandês hän—, e que sua evolução mesmo dentro da escrita vem sendo lenta.)

A luta pela linguagem inclusiva é importante. Tão importante quando ela, no entanto, é ter uma atitude compreensiva: de um lado, puristas devem buscar uma reflexão verdadeiramente esclarecida sobre a estrutura e o funcionamento das línguas, ao invés de se apegarem a uma razão apressada de senso comum: apresentar um único argumento e esperar com ele refutar uma mudança é fazer pouco da complexidade das línguas e de sua vinculação social. De outro, ativistas devem compreender o tamanho da tarefa a que se propõem, e ter ciência de que o caminho é coletivo; a mudança que verdadeiramente levará a língua a ser inclusiva não está na língua, mas na sociedade. A “linguagem inclusiva” a que muitas vezes atentamos pode nos dar algumas pistas e alguns começos (acredito, sim, que a desinência –e será importante neste processo, e que algumas das formas já geradas irão vingar), mas estes, muitas vezes, terão valor meramente performático, e não poderão ser impostas.