esquisitinhos

musical

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
musical

certo casal
temia afinal
  perder a paciência
  com infeliz coincidência
musical

Conheceram-se numa festa. Mais moço o donzel, ainda no aguardo da idade legal para estar ali e ingerir os etanóis que o já empapavam; mais madura a moça, ponderada, paciente, achara que algo nele havia autêntico por trás da bebida, ela mesma já não tão sóbria, mas ainda intactos (segundo creria) os juízos morais, conceituais e valorativos. Agarraram-se. Não desgostaram. Não desgostaram nem um pouco. Marcariam segundo encontro. Puxa (lembrando-se dos modos o moço), conversamos tanto, e ainda nem sabemos os nomes um do outro. Mônica, e o seu. Eduardo. Silêncio. Já era tarde para desistir; já se haviam interessado e demonstrado demais para que isso os detivesse. No primeiro (segundo) encontro, falaram sobre o céu, a terra, a água e o ar, mas mantiveram-se longes e alheios da onomástica. No entanto, noutro dia e noutro canto, encontra o anfitrião da festa uma amiga em comum com Mônica. E aquele garoto que saiu da festa com a Mônica? Não falei mais com ela, o que resultou daquilo. A rimática, ainda enigmática resposta: E mesmo com tudo diferente, veio vindo de repente uma vontade de se verem, e os dois se encontram todo dia, e o namoro progredia, como tinha de ser. Como é?, perplexa a outra. O nome dele é Eduardo, respondeu-lhe. Riram ambos. Na mesma noite, revisando mensagens no telefone, repara Mônica nas estranhas felicitações que lhe envia uma amiga desde um bar: juntamente com outras duas—todas triplamente aliviadas dos fardos da coerência, da dicção e da coordenação motora—, guincham algo que, filologicamente bem pesado, parecia dizer: vocês se completam que nem feijão com arroz. Eduardo também estranhou. Mas todos se encontrariam noutro boteco na noite seguinte, e poderiam perguntar. Antes, porém, que perguntassem, a esfinge do deboche lhes propôs outro enigma; um amigo levanta-se para estender a mão a Eduardo e dispara: onde estacionou o camelo? As amigas buscavam nas madeixas de Mônica indícios de tinta. Entreolhavam-se os dois, ainda faltos das funções intertextuais. E a noite prosseguiu, oportunidades apresentando ao samba de uma nota só à moda de Brasília. Eduardo contaria algo curioso que lhes passara quando se encontrariam numa lanchonete, mas era interrompido: ela não quis ver o filme do Godard, então? Eduardo recusa mais uma cerveja, pois terá de dirigir, e três ou quatro vozes proclamam quase ao mesmo tempo: ele aprendeu a beber. Mônica faz menção de se levantar, dizendo ao namorado que talvez fosse hora de irem para casa, ao que uma voz, dirigindo-se a Eduardo: ela tem razão; são quase duas, você vai se ferrar. Na volta, ainda confusos mas cansados demais para se importarem, cantarolava Mônica alguma melodia. De que música é isso, não consigo me lembrar. Tampouco ele. Assoviou mais umas notas, até que vieram as primeiras palavras: eram nada parecidos, ela era de leão e ele tinha dezesseis. Freou o outro bruscamente, numa súbita eureka. Olhou-a: também a ela escoiceara a revelação. Por quanto tempo acha que teremos de aturar isso? Não sei. Não pode durar para sempre. Não pode, repetiu a outra, em consolo. Não pode.