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O carrinho de mão vermelho (The Red Wheelbarrow), William Carlos Williams

. 5 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
O carrinho de mão vermelho (The Red Wheelbarrow), William Carlos Williams

Em poesia, mesmo a simplicidade é enganosa. Rosemary Arrojo, em sua Oficina de tradução, comenta a dificuldade em se compreender plums no famoso This is Just to Say, do poeta estadunidense William Carlos Williams: tanto a tradução quando os possíveis significados de plums apresentam sérios problemas interpretativos, apesar de o poema, em si, ser curto, direto e não conter qualquer item vocabular aparentemente penoso.

Recentemente, um amigo postou em uma rede social The Red Wheelbarrow, e me ocorreu tentar traduzi-lo:

The Red Wheelbarrow

so much depends
upon

a red wheel
barrow

glazed with rain
water

beside the white
chickens

(Ouça quatro leituras do poema pelo próprio poeta aqui.)


O carrinho de mão vermelho

tanto depende
dum

carrinho de mão
vermelho

que a água da chuva
esmalta

ao lado das brancas
galinhas


A tradução, em princípio, é o que se chamaria straightforward: praticamente, uma versão linha-a-linha dos conteúdos mais superficiais do poema. Não é bem assim. Em primeiro lugar, é preciso notar a quase proverbial diferença entre o tamanho das palavras em inglês e português: o inglês é propenso a monossílabos; neste caso, das dezesseis palavras que compõe o texto-fonte, onze são monossílabos; cada verso contém apenas um dissílabo (depends, upon, barrow, water e chickens), sendo que a maioria compõe um verso inteiro.

A tradução contém apenas duas palavras a mais, mas há maior variedade na extensão vocabular. Há oito monossílabos (todos palavras gramaticais, exceto um: dum, de, mão, que, a , da, ao, das; note-se que o original conta com apenas cinco, mas sua variedade é maior: so, upon, a, with, the), cinco dissílabos (tanto, água, chuva, lado, brancas) e cinco trissílabos (depende, carrinho, vermelho, esmalta, galinhas). A diferença na extensão dos títulos é patente: quatro x oito sílabas, nada menos que o dobro.

Para um poema cujo efeito estético depende da brevidade, todo alargamento é arriscado, mas algumas coisas são estruturais. O pós-modificador glazed with rain water torna-se uma oração subordinada plena (que a água da chuva esmalta), pois a forma participial esmaltado excederia os limites dos trissílabos, aqui impossíveis de se evitar.

Haveria sinônimos que diminuíssem um pouco o tamanho do texto? Talvez, mas imporiam outros riscos: traduzir chickens por frangos, por exemplo. Mas as diferenças de sentido entre galinha e frango seriam por demais patentes, e afetariam não somente o sentido denotativo, mas principalmente as conotações (emocionais, inferencias, associativas, etc.). Red poderia talvez ser vertido por rubro ou carmim, mas com isso há uma mudança de registro: a linguagem torna-se mais afetadamente poética. A simplicidade do poema é mais perfeitamente mantida com vocábulos longos (congeniais ao português) que raros (alheios ao poema).

Outro fator perigoso é a falsa sensação de que o poema foi composto em versos livres. Trata-se, em verdade de um poema acentual, com dois acentos no primeiro verso de cada estrofe, e um no segundo. A primeira e a quarta estrofes mantêm-se iâmbicas, havendo variações na distribuição acentual na segunda e na quarta:

Comparação da estrutura acentual do texto-fonte e do texto-meta. ˘: sílaba não-acentuada; ¯: sílaba acentuada. (˘): sílaba átona final, metricamente desconsiderada. Sobre a análise acentual, ver a nota ao final.

Após a primeira estrofe, a tradução alcança maior regularidade. O incremento no tamanho dos itens lexicais no texto-meta redunda em uma maior quantidade de pés ternários; também se deve notar que os pés ternários, no texto-fonte, podem ter a aparência de dímetros “mancos”, ou seja, faltos de uma sílaba átona.

A brevidade e a satisfatória regularidade no número de acentos ajudam a gerar um ritmo geral propositadamente lento. Sintaticamente, embora não haja surpresas, é importante notar que o poema inteiro é composto por uma única oração; depends, no primeiro verso, é o único verbo; wheelbarrow é seu objeto, so much parece ser o sujeito e o restante são pré e pós-modificadores do objeto. Tudo em ordem direta.

A complexidade do sintagma nominal em posição de objeto, no entanto, contrasta com o modo como o período foi metricamente seqüenciado. A divisão de versos e estrofes é sistematicamente contra-intuitiva: a preposição upon está isolada no segundo verso, os adjetivos rain e white estão separados dos substantivos aos quais modificam. A importância deste recurso para o poema pode ser vista na diferença ortográfica entre título e texto: wheelbarrow aparece como uma única palavra no título, mas como duas na segunda estrofe, sendo que barrow está isolada no segundo verso. Esta diferença chama atenção para a seqüenciação nada natural de um texto no mais simples e satisfatoriamente regular. A divisão de estrofes e versos do poema gera ênfases que põe o leitor em contato com a estranha cena que aos poucos se vai construindo, das galinhas ao lado do carrinho vermelho molhado de chuva. A cena, rural e casual, assume uma ominosa importância, com cada elemento recebendo destaque ao entrar em cena.

(Note-se, a propósito, que o próprio poeta, ao ler o poema, não costuma realizar a divisão das palavras que constituem versos isolados. Confesso, igualmente, que sua velocidade de leitura me desconcertou. Mesmo assim, a análise em curso leva em conta o texto conforme escrito, e as pausas que, em tese ao menos, são decorrentes da quebra de versos.)

A tradução não consegue gerar estes cortes com a mesma intensidade: dum aparece isolado no segundo verso, em perfeita mímica de seu equivalente; nas demais estrofes, porém, os cortes são menos surpreendentes; em português, o adjetivo é posposto, e portanto se despega menos violentamente do termo a que modifica. Na estrofe final, para manter o tamanho dos versos sob controle e garantir a regularidade métrica, recorri à inversão brancas galinhas; aqui, não pude evitar uma ligeira quebra no registro.

A arte da tradução poética é feita de felicidades e suficiências. O poema não parece apresentar grandes problemas tradutórios; mesmo assim, é possível discorrer à larga sobre os sucessos e fracassos das diferentes etapas de sua tradução. Ao tradutor cabem algumas trapaças, alguns desvios e, talvez, a felicidade de algumas soluções bem-sucedidas.


Nota sobre a análise acentual: Seria necessária a ressalva de que as sílabas átonas finais não deveriam ser desconsideradas em uma análise estritamente acentual, mas não me parece inteiramente possível evitar certa conflucência com o sistema românico (algo que, diga-se de passagem, também ocorre em inglês).

Assim, desconsiderei as sílabas átonas finais apenas parcialmente, na medida em que me pareceram mais ou menos relevantes: nos segundos versos de cada estrofe, o anfíbraco me pareceu solução melhor que analisá-los como iambo + sílaba átona final; nos primeiros versos, contudo, levá-los em conta geraria uma figura quaternária, um peônio de terceria, o que é possível, mas talvez não inteiramente desejável. No meu entendimento (quero dizer, segundo minha intuição), o primeiro verso da segunda estrofe (carrinho de mão), por não conter a sílaba átona final, acaba influenciado a leitura dos demais, suficientemente semelhantes para que sílaba átona perca força como item metricamente relevante.

No caso do verso inicial (tudo depende), a sílaba átona pendurada ao final realmente apresenta um problema. Coriambos são problemáticos em português, não só por nosso pendor paroxítono, mas pela própria natureza do pé, composto por uma fusão ritmica entre um troqueu e um iambo. Mesmo assim, esta análise me parece mais intuitivamente viável que a alternativa troqueu + anfíbraco.