o Novo Testamento

o Novo Testamento
Photo by Nicolas Picard / Unsplash

certo esteta
não sabe se erra ou se acerta
    ao pintar
em gregos paramentos
o Novo Testamento

Um jovem nu sentado à beira do lago; circundantes, um halo de luz à cabeça, a espessa folhagem dum salgueiro encimando a tela. Nem Adônis, nem Francisco de Assis. Tanto o fascinara a confusão referencial da pintura, que se pôs Anastácio a trabalhar numa obra em série: lera nalgum lugar que as duas matrizes da cultura ocidental eram a antiguidade greco-romana e o cristianismo, e disso o lembrara o quadro; nos meses seguintes, dedicou-se a esboçar e executar uma seleta de cenas do Novo Testamento, como se fossem episódios da Mitologia Grega. Sua Anunciação mostrava, destacando-se contra um fundo inspirado em urbes renascentistas, da arquitetura à perspectiva, um potente Gabriel, despido senão por fitas brilhantes que lhe em frente passavam à pélvis, impondo desde o alto o corpo de atleta a uma jovem, frouxamente em sedas roxas, sobre um divã: era o Anjo e a Virgem; Eros era, e Psiquê. Seu Sermão da Montanha, não fosse tão moço o pregador ao centro, pareceria uma pintura de Sócrates corrompendo a juventude ateniense. O Cristo heróico—suave um tecido cingindo-lhes aos rins, por sobre uma das coxas—, estendia a musculosa destra em tradicional ademão pedagógico; ao ombro alterno, por Espírito Santo, uma águia. Os apóstolos, jovenzitos esbeltos e mal-tapados, voltavam-lhe olhares atentos, abstratos; um deles, notoriamente apaixonado: representava certamente aquele a quem Jesus amava, aquele a quem Jesus aconchegou junto ao peito nu (o jovem não menos) na versão que deu Anastácio à Santa Ceia. O rapazola, o corpo contorcido em virtuose anatomia, deixava à mostra os genitais, e nisso nem de longe estava só. Em sua versão da Crucificação, pendurara o Cristo sem o pano censor à cinta; desde a cruz, triunfava olímpico sobre a Morte: o peito inflado, a musculatura mais tesa que uma ponte levadiça, a face voltada aos céus, o duro olhar em chamas. Cristo ou Aquiles, Rex (Œdipus ou judeourm), vitorioso, mais que sobre a Morte, sobre a própria derrota. Nu desceria à Mansão dos Mortos, para escandalizar os pudores satânicos e libertar as almas de guerreiros, semideuses, filósofos e políticos da Antiguidade clássica que lhe moldara as formas. Talvez ingênuo, talvez julgando (ou esperando) ser mais importante do que era, não estava pronto Anastácio para a recepção; a vernissage ocorrera no vão de entrada dum supermercado próximo à paróquia, pois sua católica mãe tinha contatos com o gerente, que oferecia às obras assistenciais doações indolores; muitos paroquianos deixavam para fazer as compras no domingo após a missa da manhã, e tal foi seu público: não Jesus entrando em Jerusalém, mas Jerusalém dando de cara com um Jesus, digamos, despreparado; não palmas ofertaram, mas punhos. Não tendo as costas quentes, a crítica especializada deu de ombros à exposição num museu alimentício, e teve de arcar sozinho com um público que não o interessava. Ao ver as santas cenas assim convertidas num ginásio espartano, algum carola acalorado dispara: quantos trabalhos não passara Paulo pregando aos coríntios… Não é pintura, é pornéia, abanou-se outra, os olhos fitos nas esféricas nádegas do centurião que vazava o  flanco de Jesus. Os genitais, verdade seja dita, eram bem à grega: apoucados expunham-se a um público a quem meio grau a mais de miopia impossibilitaria escandalizar-se. Se quase não se os via, quase não viam outra coisa. Quanto ao Cristo gloriosíssimo na cruz, não sabiam o que mais os importunava: se a presença do pênis, se sua pouca onipresença. Os modelos que emprestaram os moldes da própria nudez às personagens—aspirantes catados a preço de bala da academia local—, compareceram àquela estréia dominical, mas se escusaram de capitalizar prestígio em meio à celeuma, receosos do que se poderia inferir de perímetro e área de sua hombridade; um deles, identificado por inspetores digitais, chegou a oferecer, mediante certa quantia em dinheiro ou seguidores, a visão comparativa do quanto havia sido injustiçado, mas desistiu; sentiu que cismar o apequenaria. Outro, cotado já no domingo como sendo o próprio crucificado, negou-o três vezes. Os católicos enfurecidos, não fosse dia de ofertas no açougue, botariam abaixo a vernissage, mas deixaram a tarefa para seus telefones portáteis: poucas horas depois, todas as redes digitais do incompreendido bradavam: Crucifiquem-no! Crucifiquem-no! Crucifiquem-no! Não destruiu as obras, não as vendeu, não as pôde expor em museus. Antes de apagar as redes que o ameaçavam, limitou-se, em resposta, a repetir Yeats:

aos que o manto vos levaram,
deixai-o, que é mais intrépido
andardes nuas
.