laudas

o rabo do gato

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
o rabo do gato

dois cães decidiram
  (pelos rumores que ouviram
quanto ao visível apreço
  e alto valor do artefato)
fazer de adereço
  o rabo do gato

Como se usa isso, inquiriu Rex? Em volta do pescoço é o mais comum, retorquiu Fido. Os mais avantajados trançam no próprio rabo ou em uma das orelhas. O Molecão conhece um cotó que fez aplique; não tem como abanar, mas irritou a dona que lhe mandou decepar o rabo. Interessante, respondeu Rex. Mas isso não impõe restrições à caçada? Como assim, perdeu-se Fido. Rex suspira (cães de raça e sua inteligência involutiva, pensou), e explica: Teremos de tomar cuidado, ao caçar o gato, para não danificar o rabo. Não pode ser arranhado ou fraturado; não deve conter cicatrizes que lesem a pelagem. Claro, claro, compreendeu Fido. Com mais alguns dias de estudo — era Rex um cão bem-disposto às últimas tendências, fossem de Paris, Milão ou da lixeira aos fundos do açougue — , descobriu que havia, inclusive, escolas e correntes de treinamento e pensamento acerca da arte de caçar gatos para lhes extrair o rabo; havia também movimentos mais canídeos (cachorros, quando algo lhes parece bom e justo, não dizem humanitário, mas canídeo) que sintetizavam colas felinas, e somente aos bichanos pediam que posassem — não que gato algum fosse trouxa de ficar imóvel frente a um cão desconhecido, mas perguntar não ofende. Fido estava de olho em Talquinho, o angorá aprumadíssimo de uma gerente de joalheria. Prédio de área nobre, difícil acesso, nem próximo à calçada lhe permitiam andar. Tão pretensioso quanto despreparado, suspirava Rex. Terá sorte se conseguir fazer enfeites natalinos com as bolas de pêlo cuspidas por algum gato vira-lata, dos que caçam os ratos aos fundos da feira.