esquisitinhos

perpetuamente

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
perpetuamente

certa freira em reclusão
  descurava a devoção
pois lhe a mente rondava
  roda que rodava
perpetuamente

Longe do estéril turbilhão da rua, beneditinamente escreve. Bom, não exatamente escreve, toma lá ou cá alguma nota, mas muito trabalha—trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua. Não tem o claustro (real, não inventado como o de Bilac) aconchego, sossego ou paciência. Pois outra clausura não admite senão o interior de si mesma, e dentro de si construíra, sem bem saber como, perfeita uma máquina. Admoesta Bilac que a forma disfarce o emprego do esforço; não se mostre tampouco o suplício na fábrica. Mas ciência não é poesia: esta se desprende dos processos que a conceberam; possessão, pesadelo, ou ponderado pesar de grandezas, tanto faz. Se o poema é bom, é bom; corram os doidos atrás de como se chegou a ele, que nem o poeta bem o sabe explicar. Não obstante, se a beleza é gêmea da Verdade, a ciência é siamesa do Método: não há resultados sem processo, não há validação sem clareza nos processos. Irmã Hipácia—ou Irmã Empáfia, como a chamam as colegas de convento, mais interessadas em dedilhar a vulva e torturar noviças que em aprender sobre o universo criado pelo suposto Senhor—consumia-se em saber como chegara, dentro de si, ao sonho de Báskara; como ultrapassara os sábios todos que, com Báskara, buscaram sonhar para sempre. Noite qualquer, deitara-se, à perfeição matemática orando; dormira, sonhara; acordara, sonhava ainda. Contínua, ininterrupta. Sonhava há anos, beirando a década, desde o sonho primeiro. Vira à sua frente a roda prototípica de Báskara, girando, propelida pelo peso dos líquidos internos, que se deslocavam em ritmo sempre igual. Não era mercúrio o líquido, não era madeira ou metal ou diamante a roda. Nem mesmo da matéria mesma de que são os sonhos feitos. A água era forma de água, não água em si; a roda não mais que a forma da roda. Não era matéria, nem luz, nem energia. A roda era forma, pura forma (que inveja sentiria Bilac!), e por isso se movia indefinidamente: não havia atrito, não havia perda de energia para o meio material circundante. Pouco estava Hipácia interessada em relatar os esforços mentais que fizera para viver uma vida regular tendo sempre à frente do olho uma roda—inteiramente mental, mas com nitidez superior à da realidade tangível—que não para nunca de girar; o que fizera para não enlouquecer interessaria talvez aos psiquiatras, mas medicina não era sua jurisdição, e não se desviaria antes de aprender como fora capaz de construir mentalmente a máquina, de sempre à frente tê-la de si. A forma não tem atrito, mas tem peso, pensava. De que outro modo o deslocamento da forma dos líquidos levaria ao movimento contínuo da forma da roda. De que outros modos gerar formas mentais puras, que permaneçam-se a si mesmas, independentemente de vigília, consciência, foco, atenção (teria, enfim, de recorrer à psicologia para auxiliar a física?). Por horas, sonhava acordada Hipácia, minimamente tentando divisar algum detalhe da pura roda que criara, e que a si se preserva. A roda que o Deus no qual talvez cresse usaria para franquear perpétua energia à vida eterna.