esquisitinhos

perpétuo pipi

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
perpétuo pipi

moço havia
que apenas co’ anjo de guarda vivia
pois a meiga alminha
  poder não detinha
  p’ra parar de fazer sobre si
perpétuo pipi

Foram as últimas férias na presença de amigos e colegas; após o incidente, progressivos se foram afastando, não bem sabendo lidar com a situação, fugindo-lhes não só ao controle, mas ao próprio plano existencial. Contava a amiga uma anedota de seu último relacionamento; era um luau à beira-mar, nuvem no céu não havendo, nem calha nem árvore sobre as cabeças que justificasse as gotas que sobre si caíram, enquanto tentava se concentrar na hilaridade do ex-namorado da narradora. Que perfume está usando?, interrompeu-se a moça. Algo pingou em mim, respondeu. Mesmo estranhando, simularam fazer pouco caso, mas persistia o perfume—algo como lavanda ou rosas, ou suco fresco de frutas doces, algo absurdamente familiar mas dificilmente reconhecível, agradável mas inconveniente, humilde mas importante, um puro olor concentrado que importunava o poluído subconsciente de distraídas narinas. No dia seguinte, em meio a uma trilha, as mesmas gotas, visíveis agora, persistindo embora o mistério da origem. De manhãzinha, sozinho com outros pensamentos e aguardando o nascer do sol, foi por terceira vez borrifado. Cantou um galo longínquo, e algo se pôs a chorar. Olhou o rapaz para cima: sobre uma nuvem empapada em fragrância, um menininho indefinido. É você quem fica derramando isso em mim?, perguntou o rapaz, sem saber se se irritava ou compadecia, pois parecia mortificado o menino. Sou, segredou o outro; sou seu anjo da guarda. E ultimamente vem-me falhando a bexiga. Conversaram ainda uns bons minutos sobre medicina angelina, saúde espiritual e financiamento público de direitos fundamentais em outros planos ontológicos, antes que se inteirasse o rapaz do sentido do que ouvira: as gotas eram urina angélica. Forçosamente posicionado sobre o protegido, o descontrolado ser espiritual fazia-lhe água encima. As despesas—para nada dizer das estranhezas—escalonaram a partir daí: botas, galochas, guarda-chuvas, capas, chapéus. Tudo usado em dias de sol. Foi por terceiros o odor facilmente equacionado a algum tipo de alucinógeno que, narinas acima, corroía o juízo do jovem, expondo-o ao ridículo público. Decepcionado, isolado, deixava-se agora o rapaz, durante as férias, pelas praias; sentado, observava os passantes acompanhados, sequinhos, já surdo à recorrente pergunta que indiscretos sussurravam estranhos: Mas quem passa perfume para vir à praia?