esquisitinhos

provar que não era idiota

. 1 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
provar que não era idiota

certo zelota
  possuía profundo
desejo de ao mundo
  provar que não era idiota

Duas epígrafes grampeiam a fé cristã no mural das humanas idéias: João 20, 29 (Porque viste, creste: mais feliz quem não viu e crê) e o lapidar estropio do pensamento expresso em De carne Christi, de Tertuliano: credo quia absurdum. Mas para este novo Elias, novíssimo Batista, a exaltar-se da ponta dos pés sobre um caixote de madeira, partindo o mar multicor dos desordenados rumo ao terminal, a verdade era auto-evidente, e portanto verdadeira: crer era fatual. Estrangulando entre secos e nervosos dedos uma Almeida, ao ar suspensa, aos transeuntes gritava as transparentes evidências; não juntara ainda o suficiente para comprar um microfone—não pedia ou aceitava contribuições durante a pregação, embora ocorresse regularmente em horário comercial—; a garganta era um abismo clamando no deserto aos analgésicos. Nenhum olhar compassivo cruzara-lhe o caminho desde o sonho em que um anjo lhe dissera: Vai, prega; os poucos que o interpelaram tinham a torturante luz do livre-pensamento, do ceticismo, do ateísmo, da desconfiança, da corrosiva derrisão. Havia menos certeza nesses olhares que no seu, disso não duvidava; nos poucos segundos em que se encontravam, versículos vários neles distinguia, de alguma escritura que não alcançava conhecer; um período infirme, de apostos composto, e subordinações atolondradas, doente desdobrava-se entre pecador e pregador. Sabia-se superior; por que o importunava? Um jovenzinho particularmente triste, carregando-se a si mesmo rumo a alguma Gólgota escolar, olhara-o de relance enquanto apocalipsava; sentiu-se como o Pedro de Lucas, pelo Cristo traspassado após o haver triplamente traído. Percebeu que temia que o julgassem, temia ser um imbecil perante os homens; que a si pregava, que a si pregara durante anos, pelo temor de estar em erro. Exaltava-se a si mesmo naquele estúpido caixote, recusando-se àqueles incompletos inquéritos de indiferentes passantes. Traspassou-lhe o tórax uma adaga de dor, e ao chão entregou o espírito. Suspirou, conteve-se. Aos gritos, com a voz partida em duas, mais ressequida que uma figueira, empeçou o Sermão da Montanha.