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Revisão de traduções: entrevista com Fedra Rodríguez

. 3 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
Revisão de traduções: entrevista com Fedra Rodríguez

Tradutores e revisores têm algo em comum: sua tarefa é cuidar do texto alheio. Recentemente, sinalizei (embora, talvez, indiretamente) os perigos relativos à mediação via tradução através de um comentário a um artigo de Monica Lewinsky; hoje, abordaremos uma tarefa duplamente mediadora: a revisão de traduções. Para isso, convidamos a tradutora e revisora Fedra Rodríguez para nos falar um pouco sobre sua experiência no campo da revisão de traduções.

Como tradutora, Fedra traduziu a Raymond Roussel para o português e para o inglês (essa tradução já foi divulgada aqui). Recentemente, também contribuiu com a Pequena Biblioteca de ensaios da Editora Zazie, traduzindo Geneviève Fraisse; seu mais recente trabalho é um artigo publicado no periódico eletrônico Carnets sobre a tradução de autores de “literatura menores” como um processo de “tradução composicional”.

Entrevistamos Fedra, e fizemos algumas perguntinhas sobre o processo de revisar a tradução alheia.

Fala um pouquinho do seu histórico na tradução. Para quais línguas você traduz, em que áreas atua?

Minha primeira formação, Ciências Biológicas, acabou se tornando um caminho inviável para mim por diversos motivos. Ao tomar a decisão de deixar essa área, surgiu, por sugestão de um amigo queridíssimo, a ideia de aproveitar os conhecimentos em Biologia e as línguas que já falava. O espanhol e o galego vieram de graça como herança de família (sou filha de imigrantes), aprendi o inglês estudando desde os 11 anos de idade, o francês, também, mas por menos tempo, esse eu precisava melhorar. Então em 2007 entrei no mestrado em Estudos da Tradução pela UFSC e pedi retorno de graduado para o curso de Letras Francês. Desde então não parei mais de traduzir. No começo, como aprendiz, depois fui aperfeiçoando, ganhando experiência, e hoje é uma das minhas principais atividades profissionais.

Além de traduzir, você também atuou como revisora de traduções. Quais revisões você assinou?

Publicadas em editoras apenas duas: Locus Solus, de Raymond Roussel, traduzido por Fernando Scheibe e publicado pela Cultura e Barbárie em 2013, e Da imagem que falta aos nossos dias, de Pascal Quignard, traduzido por Nina Guedes e publicado pela Zazie Edições neste 2018.

Como se dá o seu processo de revisar uma tradução?

Como traduzir, revisar também requer estratégias adquiridas com a experiência, as leituras, mas algumas delas são particulares ao estilo e modo de trabalho de cada profissional. Antes de mais nada, gosto de ler o original por completo, e, em seguida, a tradução. Somente depois dessas duas etapas dou início à revisão, munida de muitos dicionários. A revisão de Locus Solus, contudo, foi algo especial: trocava ideias o tempo inteiro com o Scheibe (tradutor), discutíamos as escolhas, as possibilidades. Esse diálogo com o tradutor trouxe um resultado excelente. Mas sei que isso nem sempre é possível no mercado editorial.

Qual a principal diferença entre traduzir um texto e revisar a tradução alheia? É possível dizer que uma dessas tarefas seja mais difícil que a outra?

Cada qual traz seus desafios, mas a revisão nos “encaixota” mais. Ao traduzir, somos nós os responsáveis pela interpretação e, consequentemente, pela escolha dos termos que vamos aplicar, creio que somos mais “criadores”, temos liberdade de criação, de colocar os termos que a leitura pessoal nos fornece. Na revisão estamos mais atados, somos a terceira etapa: já houve um autor, um tradutor, não podemos nos esquecer que outras duas pessoas “estão” no texto.

Qual a principal diferença entre revisar uma tradução para a língua materna e revisar uma tradução para a língua estrangeira?

Se a revisão para a língua materna já oferece bons desafios, para a língua estrangeira torna-se um “campo minado”, um passo em falso pode comprometer o trabalho inteiro, que, como digo, já contém em seu interior outras duas figuras: o autor e o tradutor. Nesse sentido, há a necessidade de buscar ainda mais subsídios, de uma pesquisa mais ampla de termos, contextos de produção, etc. O problema é que nem sempre temos tempo hábil para isso, infelizmente, na tradução, e mais ainda na revisão, os prazos costumam ser exíguos. No entanto, somos tradutores e revisores: estamos acostumados com o impossível.