esquisitinhos

ruidinhos em recitais

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
ruidinhos em recitais

certa estudante
  costumava constante
fazer infernais
  ruidinhos em recitais

Sempre foram os pais adeptos à mais avançada arte: ávidos vanguardistas, resenhistas de happenings, problematizadores de performances, e atualmente às voltas com a fusão de todas as artes em um melting pot digital. Desde pequena, derrisoriamente soubera que mesmo um macaco, se lhe derem papel e pincel, buscará algum nível de ordem e simetria; desde a pré-escola, esperavam que ultrajasse os docentes com traços erráticos, mudanças abruptas, quebras de continuidade, fatiamento dos planos geométricos e da perspectiva tridimensional, fragmentação dos pontos-de-vista e criação de rotas alternativas para os pontos-de-fuga. A adolescência obviamente a afastou do cubismo, do expressionismo, do dadaísmo—ou, como chamava, do ridículo. (Isso é arte de ponta!, iravam-se os pais. De ponta-cabeça, irritava-os.) Ter de suportar outro Rachmaninoff fê-la deveras apreciar uma desavisada que esquecera ligado o telefone, e que, não satisfeita, ornara algum velocíssimo Liszt atendendo-o. Os chiados pedindo silêncio—entre opianíssimo e o mezzoforte con fuoco—desconcertaram o exausto executante. A partir daí, passou a desenvolver, entre desavisadamente intuitiva e declaradamente programática, sua própria forma de happening: simular algum tipo de distração ou acidente que gerasse ruídos em meio a recitais. O estranho interesse por ir sozinha a concertos aprazia os pais. Começara suas intervenções pela indumentária: tamancos e pulseiras, todo um estudo gestual e uma escolha de lugares de onde se levantar e sair a meio concerto; os acarpetados abafavam o som dos tacões atacando o chão, mas a simulação de um passo apressado que troncho tentava ser sorrateiro garantia algum sucesso de público e crítica. Mesmo no escuro, fulminavam-na olhares furiosos, repletos de frustrado apreço musical. Que delícia. Os telefones celulares ficaram para uma segunda temporada, pois não sabia como empregá-los: desejava que a interrupção parecesse acidental, mas não idêntica a genuínos descuidos. Talvez deixar soar um alarme, algum som ligado, do tipo que não se fizesse imediatamente perceptível, e que perguntando deixasse as pessoas: acho que estou ouvindo alguma coisa, de onde vem? Em um terceiro movimento, convidar amigas a concertos: odiavam aquele tipo moroso de música, seria fácil se distraírem. Mas não teria controle sobre suas participações; não saberia com que maus modos se portariam, e os critérios pelos quais embasava seu controle de qualidade—gerar incômodo pontual, sorrateiro—estariam comprometidos. O confronto direto—alguém que de fato a encarasse e lhe pedisse, com maior ou menor grosseria, que mantivesse a compostura—era um fracasso. O mudo constrangimento, o incômodo silencioso, as distantes indiretas de olhares e chiados eram seu objetivo. Vinha aí nova temporada de recitais. Empolgava-se. Progredia. Secretos, encobriam os pais um vergonhoso orgulho.