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esquisitinhos

meu pai paga o seu salário

. 3 minuto ler . Written by Fabiano Sei
meu pai paga o seu salário

professor havia
que refutar queria
argumento discente
  indecente
  e salafrário:
“meu pai paga o seu salário”

Não compreendia o alunado a matemática; espreguiçavam-se, espichavam-se, tangiam-na o suficiente para os mandatórios arredondamentos no conselho de classe, mas não a apanhavam, apalpavam, tampouco saboreavam-lhe os precisos acepipes. Poucos demonstravam estarem equipados com aquela fina enzima fundamental ao bom desenvolvi-mento das funções lógicas—interesse. Começavam a cansá-lo os mecanismos de defesa dos caríssimos estudantes. Frente aos pedidos para resolução de exercícios, desde a carteira ou no quadro, algumas das quase certeiras recusas e tergiversações eram oriundas de timidez, preguiça, indiferença, necessidade por atenção, mas uma ferina parte advinha de um prazer pelo mando, de uma certeza quanto à objetividade natural da própria superioridade, de algum direito divino outorgado por divindade menor e mesquinha ainda não dotada de escritura nem canal de vídeos; redundavam estas infelizes em ser lembrado o docente de que era o pai do cliente quem lhe pagava o salário. As derivações lógicas deste argumento de premissa única eram necessariamente múltiplas: faço se quiser, faça você mesmo, não manda em mim, sou eu quem dou as ordens, ainda não es-tou satisfeito com seu desempenho, talvez mude de escola ano que vem, processarei o professor. Sendo véspera de prova—cansado de perguntas escassas de valor e da escassez de perguntas verdadeiramente matemáticas, e já teme-roso e exausto das retaliações—, ouviu a um de seus piores discípulos o delicioso edito moral; por alguma razão, tão fortemente o desconcertou, que, abanando as perplexas mãos ao bolso, deixou cair uma moeda. Quer outra para inteirar o almoço, gritou-lhe alguma voz ao fundo. Iluminou-se, então, a idéia: pouco me importam as conseqüências; é o que farei. Informou aos estudantes que a prova teria apenas uma questão simples, e que lhes seria permiti-do uso de calculadora. Não conseguiu mais dar aula pela algazarra, mas pouco importava. No dia da prova, deitou à frente de cada um (prazer à uma coletivo e distributivo) uma folha com as seguintes instruções: Uma escola particular conta com 1.500 alunos regulamente matriculados, nenhum inadimplente. Nesta escola, a mensalidade individual é de R$2.000,00; o salário mensal pago a cada professor é de R$2.490,00. Levando-se em consideração que cada mensalidade contribui igualmente com o pagamento de todos os encargos e despesas mensais da escola, calcule: (a) O valor de cada mensalidade individual destinada a compor o salário mensal de um professor. (b) A porcentagem de uma mensalidade individual a que corresponde este valor. (c) A porcentagem do salário mensal de um professor a que corresponde este valor. Conforme esperava, deflacionaram as notas. Estava, verdade, disposto a lhes dar uma segunda prova, após discutir os resultados e, especialmente, após esfregar-lhes nas analfabetas fuças que não, nenhum deles lhe paga o salário; não funciona assim a contabilidade escolar. No dia seguinte à prova, porém, buscou-lhe um pai ao estacionamento. Que estória é essa de dizer a meu filho que não pagamos seu salário? De onde crê que vem o dinheiro? Tentou ponderar que apenas lhes demonstrara que, estritamente falando, ca-da aluno contribui com uma parcela do valor. Não houve tempo; o pai tinha melhores argumentos—um de direita e um de esquerda—; ao primeiro protesto por parte do docente, seguiu-se uma progressão aritmética de murros. Dor indizível, indivisível, quebrantara-lhe queixo, ombros, estômago; dor inclassificatória—natural mas irreal. Foi deixa-do ali, recuperando-se, enquanto se afastava o outro. Va-mos, filho. Amanhã falaremos com a direção. No dia seguinte, pela tarde, foi convocado, e se afastou das premissas escolares sem concluir as aulas do período. Em nota, explicou-se a direção: A direção muito lamenta o incidente envolvendo o professor Pascal; aos estudantes prejudicados, será oferecida oportunidade de refazerem a avaliação. A direção sente-se ainda ultrajada e perplexa, uma vez que—apesar dos esforços em mascará-la—, o professor flagrantemente infringiu a intimidade contábil da escola na elaboração de suas impossíveis questões; tampouco admitimos menção à inadimplência escolar, encarando-a como indireta mesquinha, não-autorizada pela empresa nem por seus órgãos contábeis e de marketing, destinados a tratar de tão delicados assuntos. Semelhantes indiscrições não poderiam redundar senão em sumária demissão. A todos os prejudicados, nossas sinceras desculpas, e nosso reiterado compromisso com o conforto, o bem-estar e a qualidade de ensino de nossos educandos.