laudas

sempre contendo o mesmo bordão

. 1 minuto de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
sempre contendo o mesmo bordão

Certo homem havia
cuja obsessão
eram xingamentos
sempre contendo o mesmo bordão.

Eugênio julgava-se genial. De modo ainda infundado, ainda não descoberto por anteriores gênios, tampouco trilhado por plagiadores, espiões industriais ou intertextualizadores ambíguos. Supunha que contrairia fama compondo alguma epopéia ou longo poema espiritual a partir do principal produto de seu constante mau-humor de superioridade incompreendida: ofender. Certa feita, saiu-lhe da boca que determinada pessoa parada à esquina, tapando-lhe a passagem, era uma besta quadrúpede; gostou da combinação, elogiou-se e seguiu (nada se disse sobre seu tostão de acidez ser tributário de mais corrente moeda na grosseria brasileira). Um segundo bloqueio por um segundo transeunte foi premiado com um besta quadrúpede que baba pelas narinas. Molestou-o repetir-se; culpou a repetição do entrave; acabou, enfim, por mais plenamente aceitar-se ao vê-la como um jogo de variações do qual se via involuntário e inevitável fundador. Multiplicou, assim, o impropério em versões entre si competindo: besta quadrúpede que lambe fezes do asfalto, besta quadrúpede que limpa o ânus com o rabo, besta quadrúpede que faz malabarismo bucal com os dentes soltos, besta quadrúpede que baba sobre a urina para temperá-la antes de bebê-la como se fosse chá de ervas, besta quadrúpede que tempera os orifícios com pimenta mentolada e açúcar de confeiteiro, besta quadrúpede que usa óculos de sol nas tetas, etc. Anotava as variações, ordenava-as, buscava seqüenciá-las logicamente. Teria o atrevimento de contar a história mundial através de uma indistinta e universal besta quadrúpede, que em si resumisse todos os erros da triste raça humana? Estaria apto a semelhante empreitada? Que fariam com as cópias da Comédia (Divina ou Humana, tanto faz) quando seu opus diatríbico houvesse finalmente sido concluído e ofendido todo e qualquer ser humano—vivo, morto, inascido ou irreal?