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esquisitinhos

sentia cosquinha

. 1 minuto ler . Written by Fabiano Sei
sentia cosquinha

certa mocinha
  tão meiga havia
que quando comia
  sentia cosquinha

Graça chamava-se, graça embora não visse na vida, nem em si a sentisse. Certa tarde de inverno, tomando sopa de ervilhas—sempre as ervilhas, desde Andersen as mais eficazes reveladoras da sensibilidade física—, denso e delicado ao caldo sentiu descer-lhe a traquéia com vivacidade cartesiana; escapou-lhe inevitável e não menos leve o riso; por pouco não se afoga. Desde então, tivera de reaprender a comer, pois os alimentos trato digestivo adentro desciam fazendo-lhe cócegas. Comer perto dela era uma deleite, ou profundamente incômodo. Chegara a evitar alimentos apimentados por um tempo, receosa de que a queimação do condimento inteira infestasse a digestão, mas as cócegas eram universais e homogêneas: sabor, quantidade, temperatura ou tempero em nada alteravam a sensação risível. Apesar disso, ao correr a palavra, por vias nem sempre digitais, de que delicada moçoila de inconspícuo aspecto sentia cócegas ao comer, a certo influenciador digital farto em patrocínios e falto em idéias ocorre invitá-la a comer plumas em um vídeo para seu canal. Faz disso promoção, anunciando-lhe o convite em vídeo, para que entrasse em contato com ele (contava decerto com a promoção que lhe traria a revolta de veganos que já lhe outros vídeos vituperaram). Julgou-o Graça grosseiro, por assim expô-la. Mas emprego não anda fácil.

Ilustração de Edmund Dulac para A princesa e a ervilha, de Hans Christian Andersen (1911).