sentiu prazer anal

sentiu prazer anal

. 3 minuto ler

musicista manobra
  para concluir uma obra
inspirada quando afinal
  sentiu prazer anal

Nada mais injusto que batizá-la Árida Amara. O sobrenome de família era como era; o nome, adotara-o a mãe por julgar tratar-se dalguma imponente rainha egípcia. Desde cedo, demostrara a me-nina aptidão a coisas feitas (dentre outras coisas) com as mãos: a viola e a masturbação. Suas melhores homenagens a professoras, parentes e colegas, suas mais sentidas cantigas, surgiram-lhe todas enquanto dedilhava. Deu para a música, naturalmente; nela, inda na infância fundiram-se as melódicas, santíssimas siamesas: a ciência, a sapiência, a saliência. Se as letras anteriores ao período das operações formais eram canhestras em seus (nem sempre tão) duplos sentidos, as primeiras letras profissionais, já na adolescência, nada tinham de áridas; eram, mais que tórridas, torrenciais. Não o fazia para chamar atenção fácil, nem por pirraça ou afronta; simplesmente ocorria de a inspiração lhe sobrevir durante o ato adâmico—solo, em duetos, tercetos de sopros, quartetos de cordas ou big bands. Não era pornográfica; era sincera. Não tardou até que seu amor à música suprimisse ou reorientasse a libido: adulta, o conluio íntimo era fonte de inspiração—necessária para o cumprimento de suas (agora) obrigações contratuais—; não lhe desgostava o toque de homens ou mulheres, mas encontrava neles prazer derivado; dentro de si mesma, em solidão arranjava o que lhe sugeriam beijos, carícias, orgasmos. Tinha poucas barreiras em relação ao sexo; seu mais glorioso trabalho (em sua própria opinião, como se verá) adveio-lhe inclusive quando a trombeta dum Josué derribou-lhe as mulas muralhas da frigidez anal. Considerava-se musicista e mulher de vanguarda; prazeres retaguardos jamais a interessaram, havendo-se neles engajado de modo puramente experimental, sem gozo, e sem uma semifusa sequer de inspiração. Com Josué, foi diferente. Não sabia dizer se a composição, a orquestração, o arranjo, a polirritmia ou o hábil uso da sétima aumentada foram responsáveis por tamanho sucesso de público e crítica. Cumulou-a de acumulados cumes de delícias. Em seus tardios e traseiros préstimos, tamanha diferença fizera Josué que a levara a compor, numa vastíssima tarde de amor em marcha ré, um álbum inteiro. Justiça seja feita, era um álbum de regravações; seria (de certa forma) seu primeiro disco como intérprete; seria um álbum conceitual: todas as regravações revisariam os arranjos originais (os que Josué lhe inspirara fariam o Desafinado parecer o Ilariê) e partilhariam estritamente a mesma letra; o plano original era regravar uma seleta de suas canções favoritas de Sandy & Júnior, substituindo as letras por variações de dei o cu. Por razões não muito claras, não obteve a cessão de direitos. Recorreu então a outras composições—sempre sugeridas em visões retais pelo talentoso parceiro—, mas os detentores dos direitos autorais seguidamente recusavam participação no projeto. Chegou a cogitar a regravação apenas de peças em domínio público—modinhas do século XIX, canções folclóricas—; em seu obstinado desespero em defesa dum projeto que nem findava nem se finava, gravou uma demo pentatônica de Feliz aniversário e Jingle bells. Felizmente, obteve inesperado apoio de artistas menos conhecidos, que lhe ofereceram canções a serem assim regravadas—sacrificando suas esmeradas letras em prol do menos que abundante trissílabo, em nome dalgum nasgo de fama que os alavancasse. Conseguiu ainda um acréscimo, até então impensado, ao repertório: Joaquim Desprezo—compositor contemporaneíssimo especializado em música oral da mais estridente e dissonante—concordou em fazer guinchar o monotônico verso numa peça para dez vozes em microtons. (Lutero opinou que a maioria dos músicos faz das notas o que pode, e Desprez o que quer; Desprezo—amigo e rival do renascentista, compondo amiúde mais bêbado que um bukowski—, faz delas gato e sapato. Ninguém senão ele tão rigorosamente reduziria aos átomos as doze notas do sistema tonal.) Talvez se arrependera o renomado maestro, mas duas coisas o motivavam à vida: a abstêmia honradez e o amor ao álcool. Jamais descumpria sóbrio promessa que ébrio fizera; nunca negaria casto o que em etílicos enlaces jurasse. (Corre a boca pequena que, durante o período de composição e ensaios, era freqüentemente visto em lojas de apetrechos domésticos, comprando copos de vidro e perguntando onde poderia comprá-los de alumínio. Não raro, alegam as lendas, pós si arrastava, preso ao sapato, um preservativo usado.) Apesar de haver custado dois anos da vida de Árida—selecionando composições, colecionando negativas, buscando parceiros—, o disco recebeu desatenta atenção da crítica: as peripécias harmônicas foram ignoradas por críticos ignorantes; a estratégia lírica foi considerada barata; um ou menos críticos subiram o tom, falando em desfaçatez e pouca-vergonha; a maioria resenhou a obra em notas desinteressantes e desinteressadas; a polifonia coral de quarenta e dois minutos e cento e setenta cantores que encerrava o álbum foi descrita como um impaciente pastiche das tradições vanguardistas do século XX—inferior ao trabalho do compositor, no mais respeitado. Não se deixou abater: o amor à profissão rápido a reerguia de semelhantes nocautes críticos. Quando raiaram as primeiras resenhas, amanheciam-lhe as musas, novos planos deitando-lhe aos pés; eis que passava em consulta com certo podólogo podólatra—paga em especial espécie, que talvez amolasse o juramento hipocrático do médico.