esquisitinhos

ser artista local

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
ser artista local

certa artesã
  desenvolvera o ideal
de para o amanhã
  ser artista local

Falar é um descontrole. Assim pensara desde adolescente. Desesperava-a a impotência perante os próprios errantes sentidos; recusara-se à poesia, mesmo à prosa e oratória; optara pelas artes visuais—não as grandiosas, as grandiloqüentes, as tagarelas. Vermeer e seus códigos de mulheres recebendo cartas, a gestualidade das Anunciações e das cenas épicas, mesmo o portentoso acaso das naturezas mortas—a narrativa congelada sob a forma de pintura ou escultura, uma cena que deixa inferir o fugaz passado e antever o infeliz futuro—, a tudo isso rejeitara, de tudo fugira. Seu gozo, seu orgulho estavam nos símbolos que não simbolizam, nos significantes grávidos de um significado talvez estéril: linhas, cores, esferas, texturas, espessuras, borrões, padrões. O abstrato a chamava, não o absurdo; não talvez igualmente Kandinsky, Pollok, Mondrian, Rothko—os “grandes platônicos” da expressão plástica—: nem promover o sentido, nem desafiá-lo. Percebeu, com o tempo—não sem prazer ou apreensão—, que sempre o abstrato justificara pelo útil: em mudez e maravilha, decidira-se pela tecelagem, dedicara-se ao barro. Jarros fazia, e pratos, vasos, tigelas, xícaras; tapetes, blusas, gorros, luvas, colchas, cachecóis. Não obstante, também aí amuou-a o mal hermenêutico: padrões imprecisos—manchas multicores que não se saberia se estrelas ou poças ou nódoas—pintados ou impressos numa xícara significam a xícara, pois são parte da xícara. Desejou uma arte que não travestisse sentido em utilidade, mas, novamente, temeu a palavra—fatalmente atrelada ao ócio das altas artes dos “grandes mestres”—: comentários, resenhas, análises, livros. Angariara já certo renome; compravam-lhe as peças pessoas dotadas já duma aura textual não desprezível em meio à comunidade artística; recentemente, sem muito atinar, concordara em fornecer o figurino a certa desmantelada remontagem de Shakespeare ou Pirandello ou algum nome que ante si carrega intensa fortuna crítica. Deu-se conta do imenso mar de sentidos que alimentava. Temeu o significado—esse estranho, esse excessivamente íntimo, esse agressor. Foi quando, rememorando uma conversa que tivera com a filha, compreendeu o erro. Percebera, dias atrás, que a bolsa estava onde não a deixara, aberta como não a deixaria e vazia como não deveria. Dela indagara quem lha havia aberto e tomado dinheiro; a adolescente respondeu sem rodeios: minha amiga precisava de um adiantamento da mesada, prometeu que pronto mo devolve. Teve de sentar-se, explicar à filha sobre “as coisas da vida” (confiança, respeito, limites, amizades exploradoras), mas para posterior inspeção guardara a intuição: jamais confrontara a menina; jamais pergunta lhe fizera direta; a garota, porém—não exatamente marota, mas influenciável e temerosa, sem a fibra moral do confronto ou o nervo imoral da mentira—respondia-lhe franca perguntas que talvez nem de si para si formulara. Compreendia certeira os significados maternos não expressos; sabiam-se uma à outra, e não havia ambigüidade mesmo nas mais dúbias perguntas, nas mais cretinas evasivas. Como artista, preocupara-lhe sempre o grande arco da comunicação; afligia-lhe como falaria a séculos vindouros, mesmo que nunca houvesse em verdade trabalhado em prol da própria universalidade. Ignorara completamente a pequena precisão da fala diária, possível apenas pela familiaridade, pelo apertado convívio. Decidiu-se: selecionou uma cidade interiorana de estrutura rural, vendeu quanto possuía na metrópole, despediu-se desta e daquela tornou-se artesã. Ali, poderia expressar sua arte sem expressão, entretecendo-a nos miúdos quotidianos, na pequenina prosa, de modo a ser compreendida somente de modo imediato. E a se apagar pós si, quando chegasse a hora.