certo rapaz
  desejava assaz
digitalmente
  ser eloqüente

Custosamente aprendera em alguma lição que, para um tal Peirce (a quem chamava James Não Bond por não saber pronunciar-lhe o nome), um ícone é um tipo de signo que representa algo por guardar-lhe semelhança. Não sem choque o aprendera—afinal, lidara desde tenra idade com computadores e telefones celulares, e o que conhecia por ícone era algo que definiria como “um botão invisível com um desenho”. Semelhança alguma via em “salvar” algo premindo a finada imagem de um disquete; a pletora de aplicativos que coloria a tela do telefone parecia ainda menos icônica, sob uma ótica james-não-bondiana. Aos poucos, porém, o novo conceito fez com que novos olhos abrisse às práticas anti-sociais que mantinha com essas simulações digitais a que chamava pessoas (ou, mormente, amigos, seguidores e contatos): percebia agora como sua comunicação com esses entes consistia principalmente no uso de vários tipos de ícones (aqui, já se deixava contaminar por Peirce): um amontoado de bolotas amarelas que, em conjunto, perfaziam uma biografia emocional do Pac Man (chame-se-as emoticons ou emojis ou o que for), imagens semi-móveis com a extensão gif apendida (leia-se “guife” ou “jife”, conforme o lado que se prefira da contenda anglófona), figurinhas de fundo transparente chamadas stickies e o melhor e mais perfeito fruto da inutilidade humana: o meme. Depeche Mode e Madonna ensinaram para sempre que deveras são desnecessárias e inúteis as palavras; a prova irrefutável viera com os memes. Desejava, com a booleana força de uma verdade suprema, inteiramente interagir pelo poder das semelhanças digitais: conseguia desenvolver seqüências relativamente longas de conversas com amigos apenas pela força de acionar os quadros referenciais de memes e dos gifs que originavam. Em solene silêncio oratório, combinava longas linhas de emojis que narravam com precisão (muito provavelmente com alguma precisão) como se sentia, o que comera, o que faria a seguir. Um contato, talvez irritado, enviou-lhe a meia tertúlia uma ilustração de Arthur Rackham para Gulliver’s Travels, na qual se via dois homens com abarrotados sacos aos pés. Despachou emojis de dúvidas. É um meme da Academia de Lagado, foi a resposta: vemos aí dois filósofos portando seus sacos de ícones; não é algo que aconteceu semana passada, então certamente escapa à sua eloqüência de modinhas. Ofendeu-se; bloqueou-o. Pesquisou a referência, julgou insustentável a acusação de que seriamente plagiava o que algum gárgula do século XVIII propusera em desdém. Arrependeu-se de o haver bloqueado antes de bem conhecer o pH da injúria. Imagens não têm ritmo, consolou-se; ainda não desenvolvi o timing para argumentação filosófica por meio de memes.

Two of those sages … like pedlars among us. Ilustração de Arthur Rackham para Gulliver's Travels 3.5.