esquisitinhos

ser eloqüente

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
ser eloqüente

certo rapaz
  desejava assaz
digitalmente
  ser eloqüente

Custosamente aprendera em alguma lição que, para um tal Peirce (a quem chamava James Não Bond por não saber pronunciar-lhe o nome), um ícone é um tipo de signo que representa algo por guardar-lhe semelhança. Não sem choque o aprendera—afinal, lidara desde tenra idade com computadores e telefones celulares, e o que conhecia por ícone era algo que definiria como “um botão invisível com um desenho”. Semelhança alguma via em “salvar” algo premindo a finada imagem de um disquete; a pletora de aplicativos que coloria a tela do telefone parecia ainda menos icônica, sob uma ótica james-não-bondiana. Aos poucos, porém, o novo conceito fez com que novos olhos abrisse às práticas anti-sociais que mantinha com essas simulações digitais a que chamava pessoas (ou, mormente, amigos, seguidores e contatos): percebia agora como sua comunicação com esses entes consistia principalmente no uso de vários tipos de ícones (aqui, já se deixava contaminar por Peirce): um amontoado de bolotas amarelas que, em conjunto, perfaziam uma biografia emocional do Pac Man (chame-se-as emoticons ou emojis ou o que for), imagens semi-móveis com a extensão gif apendida (leia-se “guife” ou “jife”, conforme o lado que se prefira da contenda anglófona), figurinhas de fundo transparente chamadas stickies e o melhor e mais perfeito fruto da inutilidade humana: o meme. Depeche Mode e Madonna ensinaram para sempre que deveras são desnecessárias e inúteis as palavras; a prova irrefutável viera com os memes. Desejava, com a booleana força de uma verdade suprema, inteiramente interagir pelo poder das semelhanças digitais: conseguia desenvolver seqüências relativamente longas de conversas com amigos apenas pela força de acionar os quadros referenciais de memes e dos gifs que originavam. Em solene silêncio oratório, combinava longas linhas de emojis que narravam com precisão (muito provavelmente com alguma precisão) como se sentia, o que comera, o que faria a seguir. Um contato, talvez irritado, enviou-lhe a meia tertúlia uma ilustração de Arthur Rackham para Gulliver’s Travels, na qual se via dois homens com abarrotados sacos aos pés. Despachou emojis de dúvidas. É um meme da Academia de Lagado, foi a resposta: vemos aí dois filósofos portando seus sacos de ícones; não é algo que aconteceu semana passada, então certamente escapa à sua eloqüência de modinhas. Ofendeu-se; bloqueou-o. Pesquisou a referência, julgou insustentável a acusação de que seriamente plagiava o que algum gárgula do século XVIII propusera em desdém. Arrependeu-se de o haver bloqueado antes de bem conhecer o pH da injúria. Imagens não têm ritmo, consolou-se; ainda não desenvolvi o timing para argumentação filosófica por meio de memes.

Two of those sages … like pedlars among us. Ilustração de Arthur Rackham para Gulliver's Travels 3.5.