esquisitinhos

ser tatuado

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
ser tatuado

tatuador
sempre indeciso
  mudava de aviso
e não conseguia
  por duro deboche e ironia
do Fado safado
  ser tatuado

Coração de mãe, arpões, sereias nem serpentes. Tinha especial predileção por realizar tatuagens clássicas; a história da tatuagem, como tudo a respeito do processo, fascinava-o, e os clientes pareciam fruir das anedotas relativas a andorinhas, borboletas e âncoras, a múmias tatuadas e antigos materiais e pigmentos. Em garoto, aprendera a desenhar após ver um homem correndo em um parque, uma espada fatiada em duas por um coração encarnado (anos levara até compreender que era a espada que traspassava o coração); correra ao quarto representar aquilo: um homem com um desenho sobre si. Um tão universal e prematuro amor o levou à excelência: excelente criador e copista, perfeccionista mesmo nas mais árduas áreas do corpo; clientes ininterruptos à porta da loja, e penduradas à parede reportagens, entrevistas e prêmios. Mas também o levara a uma indecisão que passara a amuá-lo, moendo-lhe os medos entre a mediocridade e o marketing. Quem já ouvira falar de um tatuador que não possui uma tatuagem sequer? Amiúde ouvia comparações (às quais passara a encarar como indiretas) com outros mestres da arte, rascunhadíssimos em braços, pernas, costas, costelas e mesmo em rosto. Mas durante muito tempo jamais lhe ocorrera fazer uma tatuagem; quando passou a desejar alguma sobre si, tanto amava o ofício e quanto continha—mesmo as coisas que os puristas detestavam, mesmo os modismos e chavões—que não havia meio ou método para se decidir. Tatuagens clássicas, amava-as, mas não as faria; não havia símbolos, bandas, momentos ou pessoas que desejasse imortalizar sobre a mortandade da própria pele; não havia frase que lhe parecesse suficientemente sincera, ou motivo que a veras o descrevesse; não sabia ao certo que tipo de critério adotar: não iria pelos modismos (alienaria alguns clientes, bem sabia), tampouco conseguia pensar em algo original. Exímio traduzia a vida e as narrativas de indecisos através de sapientíssimas sugestões, mas as próprias não conseguia decifrar nem delinear. Por vezes, parecia-lhe haver finalmente encontrado o que gravar, mas uma noite de sono, uma pestana, uma coceira no nariz davam azo a que duvidasse, de si dissentisse e abandonasse a antes indubitável eureca. Para além de indiretas e estranhezas, havia a derrisão: chegara um colega de profissão (talvez invejoso) a propor que fizesse um sorteio, ou que se deixasse tatuar às cegas por sete tatuadores diferentes—sugestões que sentia insinceras, publicitárias, possivelmente peçonhentas. Fossem outras as circunstâncias, houvesse percebido mais companheirismo, haveria amado a oferta (por alguns minutos ao menos). Mas persistia adornado apenas pelos sinais e cicatrizes do corpo. Usava, quando possível, mangas compridas e calças; sentia-se inominavelmente nu, exceto quando só. O símbolo é a principal veste humana, compreendia. Perante tudo e todos, entristeço-me, atrevo-me, resigno-me a ser um homem sem símbolos.