esquisitinhos

seu primeiro presente de Natal

. 2 min read . Written by Fabiano Seixas Fernandes
seu primeiro presente de Natal

certo garoto havia
  por cujo engenho
  e longo empenho
suplantaria
  um grande mal:
  estratagema genial
divisaria
  para ganhar finalmente e afinal
  seu primeiro presente de Natal

Quando pequeno, deveras o molestara a negligência de Papai Noel; parecia-lhe, mais que cruel, irrazoável; facilmente perdoaria a crueldade—tão inevitável aos cruéis quanto carniça aos abutres, seguindo cria—, mas a incoerência e a falta de uma universal logística o ofendiam evolutivamente. Ao se tornar um pouco mais velho, sua mente naturalmente inquisitiva, recolhendo e comparando dados da experiência sensível, detectou infalivelmente a causa do problema: morando em apartamento, não possuía chaminé; como poderia entregar presentes onde não podia adentrar do modo tradicional? Antiqüíssimo como era, seria certamente ao praxe apegado, aborrecendo sobremaneira quaisquer quebras de protocolo. Escreveu então uma carta ao Papai Noel, pedindo uma chaminé de presente; pediu que fosse ampla (já que o senhor é afeito a uma dieta rica em biscoitos), forrada por dentro com material anti-inflamável e hipo-alergênico, e dotada de um descanso para saco. Ao ler a carta, Papai Noel se sentiu tocado. Lágrimas tantas lhe brotaram dos olhos que empaparam a gravata do hominínieo biscoito que levava aos lábios. Imediatamente (digo, tão logo terminou o biscoito), ordenou a duendes e elfos e zumbis alegres que tirassem as medidas suas e do saco, para projetarem e construírem a melhor, mais natalina e ortopédica chaminé do universo. Ao sentir o frio tanger da trena, contorcia-se de prazer. Mal podia esperar para entregá-la. Chegou finalmente a véspera de Natal—a noite infinita na qual um único homem de idade avançada percorre o universo, entregando presentes a todas as pessoas dotadas de chaminé ou churrasqueira. Ansioso, o bom velhinho esperou o momento de entregar o mais maravilhoso presente: a Chaminé Noelduto Série A+ (leia-se “ei plâs”, a pedido do duendesigner). Deparou-se enfim com o condomínio do garoto. Espraiou as bondosas e enluvadas mãos sobre o belíssimo pacote que embrulhava o milagre que, separados porém juntos, perpetraram o garoto e ele. Bom, adultos como somos, nossa coleta de dados através da experiência sensível é certamente muito maior que a de uma criança—inquisitiva como seja—, e nossas conclusões mais nuançadas, corretas e completas, de modo que creio ser bastante supérfluo (para não dizer ofensivo) completar a estória. Um excelente Natal a todos.