esquisitinhos

sobre cocôs

. 2 minutos de leitura . Written by Fabiano Seixas Fernandes
sobre cocôs

maldoso editor
  a certo falido escritor
que escrevesse propôs
  sobre cocôs

Tremiam-lhe as mãos, entre vergonha e vanglória tremia-lhe inteiro o corpo, sentado à calçada em frente ao restaurante. Humilharam-no, é certo; humilhara-se, talvez, em infensa oferta às musas que desgarraram Swift e Rabelais, Safo e Sade, Burgess e Bukowski, Rios e Carraro, Marcos e Rodrigues, Hilst e Nin, às sujismundas musas dos naturalistas, da Off-off Broadway, da Noite dos leopardos, de todo e qualquer proscrito literário a que amaldiçoaram as Letras com as pudendas pechas de párias, apátridas, proibidos, pornográficos. Mudaria, mudaria muito, mudaria para melhor, para o muito melhor, para o pior melhor que conseguisse. Mas mudaria—por honra e despeito. Fosse como fosse, decrescia-lhe a carreira: nem bem nem mal venderam os motivacionais poemas da série Aprisionar o aprender; rasos resultados prontamente superaram a autobiografia de superação, O mundo e eu no mundo em mim; no trigêmeo volume estagnara Perseguida em perdição, quíntupla saga de uma interiorana heroína desgarrada na cidade grande, dilacerada eternamente entre os braços esplêndidos de um afável afinador e um intrigante tenista (quanto lhe custara—financeiramente, digo—aprender noções básicas de afinação e tênis para poder desenvolver as maleáveis metáforas entre o musical e o esportivo, o sonoro e o cinético, o heróico e o erótico); da saga parecia certo o sucesso, mas frustraram-no reprimendas advindas de críticos que não estavam seguros se convincentemente conseguiria transformar (conforme sagazmente perceberam que insinuara) uma das personagens-chave em vampiro—o que lhes parecia um in promptu de desespero ou despreparo advindo. A quarta Perseguida se perdia entre atrasos, arroubos de criatividade temerária e, digamos, excessos sensuais. Recorrera ao editor por idéias; receava o cancelamento do contrato. Talvez o haja pego num mau dia, pois literalmente mandou-o à merda, e, aproveitando a visita, que escrevesse sobre ela. Bateu-lhe a porta na cara, não lhe atendia ligações nem respondia mensagens. Resolvera-se, porém: extinto o recurso à razão, instinto o instigava a aceitar a sugestão. O melhor, o mais imundo livro escreveria. O Poema sujo parecerá propaganda dos Sabonetes Araxá, consolava-se. Mas como escrever sobre o assunto? Como vencer os tabus intestinos que tanto o bloquearam na Perseguida? (Verdade seja dita, o erotismo do livro se um pouco perdera em eufemismos mais que castos. Era louco por biquinhos dos peitos, mas não conseguia escrever a expressão sem que os seus pinicassem, de modo que a heroína passou muito mais tempo vestida ao longo da trama que no argumento. Mais gravemente, um livro e meio lhe custara até que às personagens à cama desse pênis e vagina—assim, fria e terminologicamente postos—, estando ambas prestes a cometer ato que, de certa forma, dependia de versões mais cruas dos referidos órgãos.) Fora almoçar, atordoado. Instava-o uma urina imaginária ao banheiro. Não saía, mas em transe estacara em frente à privada. Lembrava-se de um conto de Scliar, sobre enfezado ciúme envolvendo… bom, envolvendo fezes. Dali viria uma inspiração, conseguia sentir que, manipulando os elementos do mesmo conto, chegaria a uma idéia, a um esboço. Foi quando rudes dedos se lhe impuseram ao ombro, e grosseiros braços o arrancaram, mais que dali, de si. Se não vai fazer nada, abra caminho para quem precisa. Discussão, palavreado, palavrões. Deitaram-no dois garçons restaurante afora. Nada pedira, nada pagara. Mas descarga dera ao primeiro embrião do livro; todo tremia, à sarjeta sentado, o esgoto esgotando da própria memória à sua procura.